terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Reflexões de fim de ano...

Esse período do ano é mesmo uma época de esperança. E de renovação. É um momento em que todos fazemos o nosso "balanço" e estabelecemos planos para o ano que se aproxima. Estar longe do meu país e do meu lar também me faz repensar sobre aquilo que quero daqui para a frente. É bem verdade que chegamos a um ponto em que temos a certeza de que a melhor alternativa é estar preparado para tudo. É o que tenho procurado fazer.
E sendo uma época de esperança, não posso mesmo deixar de pensar no meu país. A verdade é que, pelo que tenho lido ultimamente, parece que nunca antes houve tanto otimismo em relação ao país verde e amarelo, do futebol e do carnaval, das belas praias e mulheres "exóticas". Dessa vez o Brasil parece estar sendo visto, pelo menos aqui fora, com olhos diferentes. Apesar de todas as críticas quando foi indicado uns anos atrás junto com a Rússia, a Índia e a China como os países que viriam a "ditar as regras" da economia mundial nas próximas décadas, hoje o Brasil é respeitado internacionalmente como o país que foi o último a entrar e o primeiro a sair da crise. Passei os últimos dois meses trabalhando sobre a América Latina e os desafios para os Recursos Humanos nessa região, com o Brasil sempre aparecendo como o "novo grande líder" local. Cada vez mais investidores animados são atraídos pelo crescimento econômico e pelo controle da inflação, assim como pela estabilidade política e democrática , tudo isso também fortalecendo e impulsionando empresas nossas, como a Petrobrás, a Vale e a Embraer, a cada vez mais arriscarem-se fora de casa. Dizem que, desde que os portugueses desembarcaram em terras tropicais em 1500, o Brasil não havia conhecido momento tão positivo, estando prestes a se tornar na próxima década a 5ª maior economia mundial, ultrapassando o Reino Unido e a França (ainda mais agora, após a descoberta e exploração do petróleo no pré-sal). Sabemos que tais mudanças não aconteceram da noite para o dia, mas sim que vêm ocorrendo desde o inicio dos anos 90, ainda no governo FHC. Ainda que Lula esteja vivendo o seu mandato no acreditado melhor momento da nação, verdade seja dita, que ele também soube aproveitar dessa boa imagem para conquistar a todos os grandes e pequenos líderes do mundo (embora isso também tenha sido motivo de alguns deslizes da sua parte). Mas, hoje ele não só é escutado, como também admirado, respeitado e apontado como provavelmente o homem mais importante da década.
Engraçado que o marco simbólico de tudo isso foi quando o Brasil ganhou de Madrid as Olimpíadas de 2016. Considerando que em 2014 ainda temos a Copa do mundo de Futebol, maior visibilidade impossível. E, é claro, isso é uma faca de dois gumes. Muito investimento envolvido, muitas mudanças a serem executadas em curto prazo (mesmo se elas foram planejadas com mais de uma década de antecedência e nunca tornaram-se realidade, como o metrô de Salvador, por exemplo), mas também muitas cobranças e riscos de todas as partes.
Não tenho certeza do impacto dessas análises sobre a economia brasileira dentro do próprio país, mas ler essas notícias aqui de fora gera uma mistura de pensamentos e sentimentos: ao mesmo tempo que dá um grande orgulho (vocês imaginem como é para uma pessoa saudavelmente "nacionalista" como eu ver reportagens de várias páginas em revistas importantes e de circulação mundial, com a capa "O Brasil decola"), dá também uma certa desconfiança (será que é assim mesmo? Será que os brasileiros estão percebendo o mesmo?) e uma pontinha de esperança (mesmo que não seja tudo exatamente tão otimista assim, a fé que eu tenho no meu povo e no meu país realmente acabam por me dominar).
É essa esperança que me faz acreditar no bom senso dos grandes líderes mundiais para chegarem a um acordo sobre o controle das alterações climáticas (uma grande chance já foi desperdiçada, com o insucesso da Cúpula de Copenhagen; agora o próximo encontro só em 2010 no México), na escolha de um representante que mantenha o Brasil andando pra frente nas próximas eleições presidenciais, numa vida mais justa e sem fome para as nossas crianças, no direito à saúde, educação e segurança para todos. Apesar de todo esse entusiasmo, sabemos que nossos problemas ainda não são nada pequenos… os índices de pobreza e desigualdade podem até estar diminuindo (bem gradativamente, creio eu), e a classe média aumentando, mas questões como a educação, saúde e segurança ainda são básicas para acreditarmos que o desenvolvimento do nosso país está realmente atingindo a todas as pessoas.
Mas, a verdade é que, sendo "o país do futuro", o Brasil está no foco dos holofotes internacionais e o sucessor de Lula, seja quem for, terá pela frente um grande desafio.
Enquanto isso, cá estou eu com todos os meus botões, fazendo as típicas reflexões de fim de ano (bom, se você está em Coimbra, ao mesmo tempo em que isso é inevitável, pode ser também extremamente melancólico), e penso em tudo o que aconteceu pra mim em 2009. Em todas as expectativas que criei e que foram criadas sobre mim, nas realizações que alcancei, na independência e auto-confiança que conquistei, e nas conclusões a que cheguei... Descobri outros mares, outras praias, outros sabores, outros lugares. Aprendi a conviver e compreender pessoas das mais diversas, a andar pelo mundo sozinha, a reconhecer os meus limites. E confirmei a certeza de que o bom mesmo, embora nem sempre seja possível, é compartilhar: coisas, momentos, viagens, experiências, seja o que for. Voltando ao princípio, começo novamente a me perguntar onde será o melhor lugar para estar daqui pra frente. Confesso que ainda tenho bastante sede do mundo, que encontrei uma capacidade de adaptação antes desconhecida, mas realmente começo a pensar que condições me levariam a escolher outros lugares em detrimento daquele que sinto, penso e considero como meu.
O ano de 2010 promete, mais uma vez, grandes mudanças e estas podem levar a todos nós para muitos lados diferentes. No meu caso, aproxima-se o último semestre do mestrado, a época do estágio profissional, a defesa da dissertação, a despedida daqueles que me acompanharam ao longo desses anos, a busca pelo incerto quando tudo isso "acabar". O desafio, de todas as formas, será manter o padrão de sucessos e buscar ainda melhores alternativas e resultados. Isso vale pro Brasil, pra mim, pra todos nós. Seja lá onde estiver, tenho uma crescente certeza do que quero alcançar e de quem quero levar comigo. É o que também espero testemunhar em relação àquele que tenho certeza de que, independente do que aconteça e de onde eu esteja, nunca deixará de ser o meu lugar.
Desejo a todos um Natal repleto de amor, sorrisos e abraços quentinhos, e um 2010 cheio de surpresas felizes e muita esperança!

sábado, 7 de novembro de 2009

Para a minha mãe...

Faz um tempinho estava eu aqui conversando com o Francisco e, entre risadas, ele de repente me diz: “Sabe de uma coisa? Existem três coisas que não posso morrer sem conhecer: o Parthenon na Grécia, as Pirâmides do Egito e a sra. Carmem na Bahia, não necessariamente nessa ordem!”
Claro que achei aquilo muito engraçado! E ainda hoje, depois de ter ido à Grécia e ao me ouvir contar alguns episódios, ele continua a afirmar “Ainda tenho as Pirâmides do Egito e a Carmem na Bahia!”
E então, eu me perguntei: será que eu falo tanto dela assim? Se calhar (como dizem os portugueses), falo sim… Mais do que me dou conta. E como podia ser diferente, se ela está nas minhas melhores lembranças?
Não só nas noites de febre alta, utilizando-se desesperadamente das técnicas para fazer baixar logo como num passe de mágica, mas também nas apresentações da escola, da dança, da vida… Era ela a maquiadora oficial da turma, pra quem todas as meninas corriam desde às 5 horas da manhã pra serem as primeiras a serem maquiadas em dias de apresentação, e ainda a que reproduzia com perfeição as maquiagens das fotos das Spice Girls que cada uma levava pra se sentir igualzinha. Era também a que preparava os lanches nas tardes de trabalho em grupo e ensaios das coreografias pro concurso de dança (e nos “obrigava” a interromper para comer alguma coisa).
Parece que foi ontem… Passávamos horas testando roupas, sapatos e bijuterias (quando não estávamos esparramadas na cama dela), até ela chegar de repente: “Meninas, o que vocês tanto fazem no meu quarto?” E sorria diante da cena, umas cinco meninas vestindo e tirando roupas que pudessem servir para nossas apresentações. Lembro também quando representamos a Índia na escola… E quase toda a mobília, almofadas e cortinas da minha casa foram transportados pro stand que nós montamos. E todos os lençóis brancos que tínhamos acabaram por servir de traje aos meninos… E ela estava lá, madrugada adentro, com a gente. Aliás, até mais do que a gente (acabamos indo pra casa mais cedo eu e Gisa, pra pintarmos unhas postiças pra usarmos na manhã seguinte)…
No ano seguinte, representamos o Canadá. E lá estava ela de novo. 30 meninas. Uma única fila na minha casa, às 05h da manhã. Todas competindo para serem as primeiras. Mas era só um sonho delas. A primeira era eu, claro!!! Nas apresentações de dança, lá estava ela de novo, no backstage do teatro, ajudando a gente a se vestir, maquiando, acalmando, aplaudindo…
Logo, ela foi promovida pelos próprios professores e também pelos meus colegas e amigos, a “assistente oficial para eventos”. E óbvio que ela fazia aquilo por puro e simples prazer…
Era ela também que fazia meus penteados, e levava horas, porque não era essa sua especialidade. E nos aborrecíamos porque aquilo era mesmo muito chato. Mas, no final, ela conseguia (ou não… então, eu saía fazendo birra).
Foi ela quem inventou “artes” no meu aniversário de 15 anos para não ficar somente nos bastidores (afinal, quem ia dançar a valsa comigo era meu pai! E como ela, que havia organizado toda a festa, não iria aparecer???). De um jeito ou de outro, lá estava ela, entrando radiante, com um enorme buquê de rosas no centro do salão para “finalizar” o momento da valsa. Carmem Lúcia não podia ficar nas sombras, de jeito nenhum!
E, mesmo nem sabendo dirigir, ela fez questão de me acompanhar com meu pai até o local em que eu faria o vestibular. Passou a manhã na igreja, enquanto eu fazia a prova. O mesmo aconteceu quando saiu o resultado. Foi com ela que me desloquei durante mais de uma hora, de ônibus, em um engarrafamento monstruoso, até a casa da minha tia, próxima à universidade. E foi com ela que eu comemorei a vitória. E quem esteve ao meu lado durante os momentos de fraqueza e durante a grande comemoração (o que seria de mim sem ela pra me ajudar a organizar a minha formatura?).
E mais: é ela quem enche o peito pra dizer a todos que queiram e não queiram ouvir, que a filha dela, psicóloga, ganhou uma bolsa de estudos concorrida e está na Europa fazendo o mestrado. Por mais que me mate de vergonha, essa informação ela passa cheia de orgulho desde o cabeleireiro até as vendedoras das lojas onde entra.
Foi quem me ensinou a amar, respeitar e preservar a nossa família e a reconhecer os verdadeiros amigos.
Mesmo sendo também aquela com quem tenho mais desentendimentos nessa vida, esses nunca são muito lembrados. Ainda mais agora… Eles se tornam mínimos diante da saudade, e da vontade de compartilhar mais momentos.
Voltando a pensar nas conversas aqui de Coimbra, de Paris e de qualquer lado onde eu ande, acho que tá explicado porque ela sempre aparece. E aparece “tão pouco” que ganhou status (pelo menos pro Francisco) de “uma das coisas que não posso deixar de ver antes de morrer”.
E é por isso também que, mesmo quando me sinto sozinha, percebo que nunca estou só. E percebo que somente um lugar me faz sentir vontade de chamar de “minha casa”. Não pelo espaço físico em si, mas pelas pessoas. Elas são o meu lar. E Ela foi quem me ajudou a construí-lo.
Mãe, você pode não ser tão diferente das outras mulheres extraordinárias que existem, mas pra mim vale muito mais do que as sete maravilhas do mundo! Obrigada por tudo! Por fazer parte dos mínimos detalhes da minha vida. Por me irritar e me divertir, por reclamar e ceder, por discutir e perdoar, por existir e me amar. Sei que esse aniversário está longe de ser muito feliz... mas que a felicidade te acompanhe em todos os seus dias.
Feliz aniversário, Te amo muito.

O casamento dos meus grandes e eternos amigos...

Um fim de semana com tanta mistura de emoções... Neste dia 07, dois amigos muito queridos (Giselle e Marcel), de tantos anos, concretizaram uma união linda e iniciam uma nova família. Foram 10 anos entre namoro e noivado. E agora eles concretizam seus planos e sonhos. Mais uma vez, era pra eu estar lá... A primeira das madrinhas, convidada antes mesmo de existir um casamento... Demos um jeito, claro, pra que eu pudesse participar de algum modo. E o que eles fizeram para conseguirem transmitir via internet esse momento pra mim, eu não vou esquecer nunca...

Bom, na verdade, a história que eu aqui vou contar não começou somente há 10 anos… Afinal, eu e Gisa fomos nomeadas madrinhas dos nossos respectivos casamentos ainda crianças. E foi em 1993 que nos encontramos pela primeira vez, eu e ela. Tornamo-nos dia após dia, amigas da escola, das brincadeiras, dos ensaios de dança nos quintais das nossas casas, dos quartos das nossas mães (experimentando roupas e bijuterias), das confusões, armações, decepções e vitórias. Mais do que amigas, entramos na família uma da outra, passamos a irmãs e cúmplices.

Quando queríamos, éramos a Vicky e a Mel B. das Spice Girls, a tímida e a extrovertida, a razão e a emoção, a organizadora e a relações públicas das festas, mas sempre e em qualquer lugar, o riso solto e as gargalhadas, o olhar cúmplice e confiante, as idéias mirabolantes, os sonhos possíveis e impossíveis.

Lembro quando dancei valsa nos seus 15 anos. Parece que foi ontem que estávamos dentro daquela van, as 15 meninas vestidas de princesas…

Mesmo com a vida nos levando por caminhos diferentes, ou melhor, a escolas diferentes, nossos corações nunca se separaram. Hoje, mais do que nunca, podemos sentir isso.

E foi nesse período que eles se conheceram. 1999. Lembro como se fosse hoje o fim-de-semana prolongado em que estávamos só as meninas na casa de praia de Tâmara, e aquele celular enorme e jurássico de Giselle não parava de tocar! Tínhamos, então, entre 15 e 16 anos. E não só o celular era insistente, como minha amiga ficava toda derretida ao atendê-lo (dengosa sempre foi, né? Ainda mais com o “love” do outro lado da linha!). Naquela época, ninguém, nenhuma de nós, acho que nem mesmo eles, podia imaginar ou prever exatamente onde essa história chegaria (ainda que no auge do romance todo casalzinho se encha de planos de casarem e terem filhos um dia, não é?). Havia apenas dois adolescentes se conhecendo, se apaixonando, se descobrindo...

Mas com eles foi diferente. Os sonhos e planos de “casalzinho adolescente” cresceram e amadureceram junto com eles. A verdade é que essa data (07 de Novembro de 2009) estava sonhada e planejada desde sempre... Poucas pessoas sabem ou se lembram, porém, de que as dificuldades também não foram poucas. Marcel e Gisa, por algum tempo, precisaram realmente lutar e enfrentar a resistência de quem mais amavam para ficarem juntos. E não foi à toa que ambos, não somente mudaram a opinião dos que não viam sua relação com os melhores olhos, como também construíram em volta deles uma rede de laços familiares e de amizade que os apoiavam e, sem dúvida, estão aqui presentes essa noite (pelo menos em sua maioria).

Faz tempo vejo cada um deles aceitos e reconhecidos como verdadeiros membros de cada uma das respectivas famílias, que se tornam agora uma só, unidas pela confiança e pelo amor que eles sempre expressaram um pelo outro.

Como amiga, vi idas e vindas, consolei, animei, aconselhei, mas vi acima de tudo que um amor adolescente pode crescer, amadurecer, mudar, aprender, defender-se, enfrentar os obstáculos da vida e tornar-se ainda mais forte.

Eles não podem imaginar a honra e o orgulho de ter sido, de certa forma, testemunha de tudo isso. Menos ainda podem imaginar o quanto me custa não conseguir estar ao seu lado para testemunhar a concretização daquilo que muitos acreditaram ser devaneio de criança, arrumar o véu antes da minha afilhada entrar na igreja, dar um abraço confiante no meu afilhado, como sempre fantasiamos e planejamos por tanto tempo… Não pensem que não passei todo o último ano pesquisando formas de fazê-lo, nem que fosse no último momento, de surpresa. Mas a vida prega algumas peças na gente... Muitas vezes, precisamos abrir mão de coisas realmente importantes, pra realizar um sonho... Ossos do ofício, como costumam dizer por aí.

Se existe uma coisa que eu não gostaria de perder nessa vida, sem dúvida, é o olhar da minha grande e eterna amiga/irmã ao subir naquele altar. A imagem da menina falante de óculos coloridos cruzando o olhar da menina atrevida de cabelos bem presos, o olhar confiante e o sorriso encorajador, se misturando à imagem das duas belas e fortes mulheres que nos tornamos. O olhar da mulher linda e vestida de branco atravessando o corredor florido cruzando com o olhar do homem orgulhoso e radiante, que sempre esteve à sua espera.

Gisa e Cel, meus afilhados que eu tanto amo, o meu convite para sua madrinha foi-me designado desde sempre. E, mesmo deixando essas imagens na minha fantasia, assim eu sempre vou me considerar. Quero que saibam que, embora triste pela minha ausência, sinto-me radiante pela felicidade que sei que vocês estão vivendo. Desejo que ela se torne cada dia mais parte da sua vida e que, mesmo diante de quaisquer obstáculos e dificuldades, vocês tenham sempre, em primeiro lugar, amor e sabedoria para saberem lidar e aprender com eles. Que a nova família que vocês começam a construir a partir de hoje seja sempre abençoada por Deus e caminhe rumo à felicidade. Espero poder ser testemunha de mais, muitos e muitos anos dessa união!

Da sua madrinha.

Para sempre "minha dindinha"...

Hoje é sábado. Amanheceu um dia bonito e ensolarado. Foi assim que acordei, com a luz entrando no meu quarto, sem despertador, depois de uma semana cansativa... Liguei o computador, mas resolvi primeiro arrumar a bagunça que estava o meu quarto, lavar as roupas e limpar a casa. Duas horas depois, cá estava eu, pronta pra começar a trabalhar um pouquinho antes do almoço. O tempo já não estava tão ensolarado. é assim aqui em Coimbra, as nuvens surgem do nada e o tempo fecha sem que a gente se dê conta. Abri os dois artigos que precisava analisar e, simultaneamente, como de praxe, resolvi checar os meus emails. Vários novos na caixa de entrada. Um do meu irmão, mesmo sem ter aberto, chamou minha atenção logo pelo título: "Notícias". nem precisei abrir pra imaginar o que era. No mesmo segundo do click do mouse já derramava as primeiras lágrimas. "Cary, não sei dar essas noticias, mas não queríamos que você soubesse pelo orkut..." Minha madrinha havia falecido. Na tarde de ontem. No Brasil. E eu aqui.
Mesmo já sendo algo "mais ou menos" esperado, mesmo já tendo me "despedido" dela quando saí de lá, mesmo já sabendo que a notícia viria a qualquer momento e que, de qualquer maneira, eu estaria longe, a dor não foi menor... As lágrimas não foram poucas... E as lembranças muito menos.
Já não enxergava os artigos na tela do computador. Tentava ligar deseperadamente pro Brasil e ninguém me atendia. Enquanto isso, o Paco aparece no skype "Oi, já estou de novo em Coimbra! Sabe onde tem cantinas abertas pro almoço?" Não, não sabia, nem lembrava. Mas era um alívio pensar que não estava completamente sozinha... Até que cinco minutos depois finalmente consegui falar com meus pais. Choro coletivo pelo telefone. Preocupação do lado de lá, vontade de atravessar o oceano, do lado de cá. Mas, é impressionante como a Fé acalma nossos ânimos. Eu sei que agora ela está bem. A minha dindinha.
Ah, sim. Era a minha dindinha. Nunca soube chamá-la de outra coisa. Era a irmã mais velha da minha mãe, quase minha avó (embora fosse mesmo minha tia), mas desde que aprendi a falar, era a minha dindinha. O tempo passou, eu cresci, virei a "doutora psicóloga" dela, mas ela continuava a ser sempre a minha dindinha. Não madrinha, nem dinda, nem tia Avany, mas dindinha.
Lembro quando eu saía direto da escola e o transporte escolar me deixava na casa dela. Passava a tarde inteira lá, até meus pais saírem do trabalho e irem me buscar. Era com ela que eu fazia o dever de casa, mas era ela também que me mandava ir brincar com as outras crianças quando terminava, porque isso também era saudável. E distribuía doces e geladinhos na hora da merenda. O tempo passou e, como eu cresci, ela também envelheceu. E já não precisava cuidar de mim, era muito mais o contrário agora. Podia ser "malcriada", "reclamona", e "teimosa" com algumas pessoas. Mas nunca comigo. Nosso olhar era cúmplice. A mim ela escutava. Comigo não tinha problema, fazia tudo certinho. A gente se entendia.
Agora chove aqui em Coimbra. A neblina já não me deixa enxergar a paisagem da minha janela. Como eu disse, o tempo vira mesmo de uma hora pra outra...
Fico feliz por termos tido a oportunidade de termos a nossa última conversa, mesmo que tenha sido há quase dois meses. Mas nossos pensamentos estavam interligados. Enquanto possível, trocávamos recadinhos por minha mãe ("Mande um beijo e um abraço pra Carine"). Agora ela está em paz, é isso o que importa. Fico triste por não estar lá, com a minha família, nesse momento... Sei que precisamos sempre uns dos outros nessas horas. E triste mesmo pela idéia de que, quando voltar, já não vou encontrá-la. Mas a tristeza, eu sei que passa com o tempo, o que fica mesmo é a saudade. Aos poucos acho que vou conseguindo lidar com ela...
Em meio às lágrimas e ao entorpecimento, a minha estratégia foi escrever. Agora, já mais calma, vou ver o mundo, vou respirar um pouco, vou rezar por ela, aquela que será para sempre a minha dindinha...
Sei que a chuva logo passa, daqui a pouco o sol pode abrir novamente.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Fim de férias

Cá estive eu alguns dias em Coimbra, lutando com todas as forças contra o tédio. Acho que, apesar de uns dois dias meio "depressivos", consegui. Na verdade, não estando os amigos em Coimbra, a saída era fugir pra outro lugar mesmo. Perguntam-me por que, se as aulas só começam em outubro, não fiquei mais tempo no Brasil... Simplesmente, precisamos aparecer na faculdade ainda em setembro pra dizer que não desistimos do mestrado e recebermos a bolsa ;-) E, claro, resolver todos os trâmites de documentações e renovação de visto. Pronto, feito isso, acabaram-se meus afazeres em Coimbra até esse próximo dia 08, quando começam as aulas finalmente (nunca tive férias tão longas na vida!).
Assim, parti em um fim de semana rumo a Guarda (Portugal) e Salamanca (Espanha). Completamente mochilão, sem saber nada, nem horários, nem onde passaria a noite. Mas pelo menos tinha o Francisco como companheiro de viagem (calma, mãe, não faço essas loucuras sozinha). Guarda, muito pequenina, mas também muito bonitinha. Salamanca, majestosa. Um dia e meio e vimos tudo. De volta à Coimbra, comecei a me preparar para a próxima empreitada. Ficar aqui sozinha eu não ia conseguir.
Parti, então, rumo a Guimarães e Viana do Castelo, com paradas estratégicas no Porto (ou melhor Vila Nova de Gaia, na casa da Cat). Passei mais alguns dias muito agradáveis, com a sensação boa de estar conhecendo lugares novos.
Novamente de volta à Coimbra, fiz e refiz passeios turísticos com o Léo (que, a essa altura, já tinha chegado à cidade) e um amigo dele brasileiro que estava de passagem só por um fim de semana. Redescobrindo Coimbra, num calor inacreditável, mas de nenhuma forma renegado (prefiro mil vezes sentir calor do que frio, vocês sabem). E a semana seguinte, inteira sem aulas, o que seria?
Resolvi cumprir de certo modo a promessa que fiz a Adri de ir a Valencia no seu aniversário. Fui um pouco antes, mas valeu à pena! Passando um dia e meio em Madrid (parece que foi uma semana, de tanto que vi), tive direito a visitar todos (ou quase todos) os museus gratuitamente (Museo del Prado, Reina Sofia e Palacio Real), assisti ao jogo do Real Madrid com o Olimpique de Marseille no Santiago Bernadeu e passeei pelas ruas da cidade. Sem dúvida, um lugar onde eu voltaria.
Em seguida, parti pra Valencia (4 horas de ônibus, saindo de Madrid), com a expectativa de reencontrar amigos e conhecer os companheiros do Master em Valencia). Sem decepções. Mais animação daquelas pessoas, impossível! E Adri, uma perfeita anfitriã (bom, como guia turística, ainda precisa andar com uma bússola, pra não se perder nas ruas de Valencia). Essa, certamente, seria uma cidade onde eu viveria feliz. Não sei se pelas pessoas, mas acredito também que muito pela própria cidade mesmo, senti Valencia como uma das cidades mais agradáveis em que já estive. Além do centro histórico, fiquei encantada com a Cidade das Artes e das Ciências, sobretudo o Oceanográfico (o único em que entrei realmente e fiquei umas 3 horas passeando - definitivamente, o show dos golfinhos é encantador!). E, dessa vez, até à praia eu tive direito!!!
Mas a vida precisa retomar a rotina! De volta à Coimbra novamente... Mais três dias, e estarei na faculdade, voltando aos estudos, academia, curso de francês. Mas... e no próximo fim de semana, o que vai ser mesmo???

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Chegando e saindo...

Faz mais de um mês que não escrevo. Falta de tempo, falta de inspiração, outras prioridades? Não sei ao certo, mas, de qualquer modo, resolvi retomar meus posts.
Faz também mais de um mês que aquele avião finalmente me levava às minhas terras tropicais. Mais especificamente, a “Salvador da Bahia”, terra de todos os santos, encantos e axés. E, pela primeira vez em muito tempo, senti que havia chegado em casa.
Após a longa espera pelas bagagens, finalmente o reencontro. Em meio a lágrimas e flores, o antes abraço virtual tornou-se novamente real. A saudade rapidamente foi esquecida. O que contava mesmo era aproveitar ao máximo o tempo que agora teríamos juntos.
E assim, os dias se passaram. Enquanto isso, descobrindo e redescobrindo velhos e eternos amigos, conhecendo novos, curtindo a família, dormindo no meu cantinho, e até ficando entediada. Nesse vai-e-vem, percebia também que algumas coisas, por mais que mudassem, continuavam as mesmas. Eu era uma delas.
“Nossa, como você tá diferente!”… mais bonita, mais extrovertida, mais confiante? ok, com uns quilinhos a mais também. “Não, ainda tem o mesmo jeitinho de sempre”… fala pouco, lê muito, participa, divide-se entre todos. Bom, talvez seja assim mesmo.
Percebi que passar horas assistindo a filmes de cachorros com a minha mãe pode ser um programa ao mesmo tempo divertido e emocionante. Que, mesmo que continuasse morando com meus pais e gostando muito do ritmo da cidade grande, não toleraria estar a duas horas do meu destino por causa do trânsito. Que o inverno da minha cidade é o melhor do mundo. Que, mesmo não tendo nada pra fazer, consigo igualmente me distrair com um (ou uns) bom(ns) livro(s). Que passar sete horas na fila para a compra dos ingressos para um jogo da seleção brasileira de futebol pode passar da euforia ao esgotamento e, finalmente, à sensação de ter ganho o primeiro prêmio. Que ver a minha amiga de infância experimentar seu vestido de noiva será uma lembrança que ficará guardada em mim para sempre. Que a distância realmente nada significa para aqueles que se amam de verdade…
Mas o tempo passa rápido. Já era hora de voltar… Alguém me disse que a segunda despedida haveria de ser pior que a primeira. Na verdade, o sentimento era estranho. Como um “até mais, vou ali e volto já”, sem muita ansiedade, como de quem já sabe o que vai fazer. Acho que essa primeira semana aqui após o retorno foi muito pior do que na primeira vez, em que tudo era ainda novidade. Enquanto as aulas não começam, Coimbra é uma “cidade-fantasma”. Não tendo nenhum amigo na cidade no momento, a solução é também procurar pra onde ir. A ordem agora é evitar o tédio a qualquer custo. Sei que em breve o ritmo volta a esquentar (ao contrário do tempo que começa a esfriar), mas, enquanto isso, não pretendo deixar o saudosismo me dominar.
Quero apenas registrar o quanto esses 40 dias foram importantes para que eu pudesse recarregar as minhas energias, ao lado de cada uma das pessoas que mais amo: minha família e meus amigos. Obrigada pela comidinha caseira, pela feijoada, pela moqueca de camarão, pelo cozido, pelo carurú e pelo vatapá, pelas idas à praia, pelos acarajés, pelos sushis, pelos crepes, pela água de coco, pelos almoços, pelas lambretas, pelas horas na fila, pelos gritos de gol, pelas novidades, pelas surpresas, pelos sorrisos e abraços. Vocês são todos parte de mim.

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Falta pouco...

“Mudaram as estações, nada mudou, mas eu sei que alguma coisa aconteceu, tá tudo assim tão diferente… Se lembra quando a gente chegou um dia a perguntar se tudo era pra sempre, sem saber que o pra sempre sempre acaba? Mas nada vai conseguir mudar o que ficou. Quando penso em alguém, só penso em vocês e aí, então, tudo bem. Mesmo com tantos motivos pra deixar tudo como estar, nem desistir nem tentar, agora tanto faz… Estamos indo de volta pra casa…”
18 dias. 15 cidades. 5 países. 5 idiomas. 11 estações de trem. 3 aeroportos. Muitas horas de caminhada, alguns euros a menos, experiências a mais… Um começo de férias como eu nunca podia ter imaginado ser capaz de planejar, organizar e realizar (somente nos meus sonhos eu me via em pleno verão passeando pelo sul da França!). Hoje sei que, apesar de ser a mesma de sempre, sou diferente. Mais independente, mais forte, mais confiante.
Ainda assim, no dia 03 de Agosto de 2009, há exatamente 11 meses após ter atravessado o Atlântico pela primeira vez, e a 14 horas do mais esperado dos reencontros (sim, estou no aeroporto neste momento), existe apenas um “lugar” no mundo em que eu possa imaginar estar. A minha família, os meus amigos, a minha cidade. Será que a saudade de quase 1 ano pode acabar em 5 semanas?
De todas as viagens, essa é a única sem roteiro definido. Importa muito mais o “quem” do que “o quê” vou encontrar por lá. Na minha lista, dessa vez, pessoas, ao invés de lugares (estes são ainda mais marcantes quando se está com alguém que ama). Provavelmente, quando postar essa mensagem já estarei no aconchego do meu verdadeiro lar, no colinho da mamãe e do papai, sob os “dengos” do irmão, das tias e dos amigos. Mas não podia deixar de registrar a ansiedade de 2 horas de espera no aeroporto Fernando de Sá Carneiro – Porto/Portugal. Mais 2 horas em Lisboa. Depois disso, apenas 9 horas me separam dos abraços de que tanto sinto falta.

terça-feira, 14 de julho de 2009

Paris, tu vas me manquer...

14 de Julho. Meu último dia em Paris. Festa Nacional da França (para quem esqueceu das aulas de História, é a comemoração da queda da Bastilha, Revolução Francesa ;-). Show e fogos de artifício na Torre Eiffel. O último encontro, pelo menos nessa cidade, entre os Erasmus que ainda se encontram por aqui (eu, Adri, Davi - e Aline, sua esposa).

As despedidas nunca são fáceis. Algumas pessoas irão deixar uma saudade muito grande, mas não maior do que a amizade que levaremos para a vida. Passamos os últimos dias aproveitando cada minuto e cada cantinho dos nossos preferidos dessa cidade, a caminhar pelas ruas, ouvir música em Montmartre, fazer pic-nic nos jardins da Cité Universitaire, tomar sol nos jardins do Chatêau de Versailles, dançar forró e batucada na festa da Bastille, assistir ao desfile do 14 de Julho e chorar diante da queima de fogos de artifício pelos 120 anos da Torre Eiffel.

Mas agora começa a viagem que vai me levar ao Brasil! Mais uma semana e me despedirei da última “compañera” de Paris (Adri, “la chica argentina” ;-). Depois, seguimos viagem, cada uma para um lado, mas na certeza de que muito em breve nos reencontraremos (Valência, me aguarde!). E vocês, meus amigos, familiares, papai, mamãe, irmãozinho, nos vemos em menos de 20 dias! Não vejo a hora de rever as pessoas, os lugares, os cheiros, os gostos, os sons e o calor do nosso “inverno”! Essa expectativa ameniza o “au revoir à Paris”. Mas a sensação que fica, de qualquer modo, é de que esse sonho ainda não acabou… Quero aprender mais francês, quero falar mais francês, quero conhecer mais a França! Mas, uma coisa de cada vez, ainda há muita história pela frente...


terça-feira, 30 de junho de 2009

Le soleil brille dans le ciel de France!!!

Mais de um mês desde o último post. Não pensem que estou extremamente atarefada com o fim do semestre na faculdade. É verdade que amanhã entregamos nossa primeira versão da tese, na próxima semana apresentamos o nosso projeto e ainda temos uma disciplina para finalizar. Mas faz tempo eu decidi que minha vida não seria somente estudar/trabalhar, ainda mais quando se está morando em Paris! Desculpem aos meus caros amigos/leitores por não ter dado notícias no blog durante esse tempo, mas realmente ele tem passado tão rápido que eu nem percebi. Há sempre tanto o que ver e fazer por aqui! E em todo o tempo livre que temos, queremos correr da frente do computador.
São somente duas semanas até que todos nós, amigos do mestrado WOP-P, tenhamos deixado essa cidade e parece que foi ontem que chegamos… Mas não posso deixar de registrar esse último mês por aqui. Apesar do calor insuportável dentro do meu quarto essa tarde, decidi-me a sair, com computador e tudo, para qualquer lugar mais “fresquinho” e escrever o merecido post de Junho. Acabei vindo parar nos jardins da Cité Universitaire mesmo, com direito a vista para a minha janela iluminada pelo sol, pássaros à minha volta, ensaio de coral, crianças brincando com os pais, pessoas fazendo jogging, e, como não podia deixar de ser, alguns insetinhos e ainda um bastante calor.
Entre o dia em que chegamos e hoje há grandes diferenças, porém. Passamos do frio e dos agasalhos às roupas de praia e às legítimas havaianas brasileiras (nem todos, é claro ;-). O sol brilha em Paris e em toda a França. Finalmente, o calor, as cores, os sons do verão! E aqui ele é comemorado com estilo, como um momento dos mais aguardados durante todo o ano. 21 de Junho, Fête de la Musique. Em cada cantinho da cidade, músicos da França e do mundo celebram a chegada do verão. De orquestras a bandas populares. Do rock pesado à música clássica. Nas ruas, nas igrejas, nas esquinas, nos bares. E, se você entra de propósito, ou mesmo por descuido, em alguma portinha, acaba se deparando no Conservatório de Música de Paris, por exemplo, e se demora a admirar o talento dos jovens pianistas, saxofonistas, cantores líricos. Caminha um pouco mais e cai no samba, ou na batucada africana. Atravessa a cidade e “encontra” os famosos, em um grande palco, em um dos shows transmitidos pela televisão francesa para o mundo. A minha jornada inteira nesse dia durou 15 horas, de um cantinho para outro, de um ritmo para outro, e ainda ficaria mais se o corpo não pedisse descanso.
Ao fim da semana, mais propriamente na sexta-feira (26), saímos no “Grupo de los tres” (eu, Adri e José) em passeio pelas regiões da Normandia e da Bretanha, no norte da França. O lugar não importava tanto: queríamos praia, sol e relax. Então, alugamos um carro, e fomos acampar pelo fim-de-semana (primeira vez que faço acampamento, hein? Não sabia que armar uma barraca era tão fácil!). Trilha sonora: Michael Jackson. Como em todo o mundo, todas as rádios francesas também tocavam as músicas do rei do Pop. Inegável o quanto cada uma delas traz mil lembranças da minha infância… Seguimos, então, nossa viagem, ao som de Thriller, Billie Jean, Don’t Stop till you get enough, Black or White, Beat it, dentre muitas outras (mas não deixamos de ouvir música francesa também, para variar, né?).
Primeira parada: Merveille-Franceville Plage. A visão do Atlântico norte e o pôr-do-sol às 23h. Água fria, temperatura agradável. Passamos uma noite e uma manhã nesse lugar, curtindo o sol na pele, caminhando na beira da praia. Saudades dessa sensação das ondas batendo nos pés, da areia entre os dedos, de catar conchinhas, e de me olhar no espelho e ver uma cor “saudável”!
Seguimos viagem até Saint-Martin de Brehal: mais praia. Champagne sob as estrelas (desculpem, essa é uma bebida barata e comum por aqui ;-), caminhada ao amanhecer, almoço no gramado (desolée, maman, não deixamos de ficar bem alimentados, mas comida de camping é sanduíche, frutas e petiscos mesmo!). Passeio rápido em Brehal e Granville, cidadezinhas muito bonitas.
Seguimos viagem no domingo para o lugar mais esperado (pelo menos por mim): Le Mont Saint-Michel. Mais de uma pessoa havia me indicado, ou melhor, intimado a ir a esse lugar (“parece saído de um conto de fadas, você tem que ir lá!”). E não era exagero, muito menos mentira. Ao longe, ainda na estrada, quando o avistamos, tivemos que parar o carro. A foto valia à pena. No meio do mar, eis que se erguia o monte, ao mesmo tempo, imponente e sóbrio.
Na verdade, a história do Mont Saint-Michel remonta a 708, quando Aubert, o bispo de Avranches, mandou edificar sobre o Mont Tombe um santuário em honra do Arcanjo São Miguel (essa é a tradução de Saint Michel). O local logo se tornou um importante destino de peregrinos. No século X, os beneditinos instalaram-se na abadia, tendo-se desenvolvido uma aldeia no sopé, que foi se estendendo até a base do rochedo durante o século XIV. Ao longo da Guerra dos Cem anos, entre França e Inglaterra, o Mont Saint-Michel foi também um exemlo de arquitetura militar (suas muralhas e fortificações resistiram à todas as investidas inglesas e fizeram do monte um lugar simbólico da identidade francesa). Após a dissolução da comunidade religiosa durante a Revolução Francesa, o monte foi objeto de grandes restaurações. Desde 1979, encontra-se inscrito na lista do património mundial da Unesco. Passamos algumas horas a percorrer o mosteiro e a admirar a vista lindíssima que podíamos ter do alto da abadia.
A próxima parada, entretanto, ainda era em La Mele-sur-Sarthe. Embora a média de idade do nosso camping parecesse ser de uns setenta anos (porque baixamos um pouquinho), a região era cercada por um lago muito bonito. Passeamos pelo povoado (e eu louca para encontrar um lugar onde pudesse assistir à final da Copa das Confederações) e paramos em um bar para nos refrescar do calor de 32ºC às 21h, algo nada comum até o momento (infelizmente, nada do jogo do Brasil). A última noite de acampamento foi tranquila, e o amanhecer nos trouxe de volta à realidade. Voltamos à Paris na segunda-feira (29) e nos demos conta que, dali a duas semanas estaríamos saindo de verdade. De qualquer modo, acho que foi nesse fim-de-semana em que mais falei francês com franceses, e pude ver um pouquinho da vida que eles levam (e sabem aproveitar muito bem), diferente de Paris em que vemos muito mais estrangeiros do que parisienses e ouvimos muitos mais idiomas do que o francês propriamente dito. Mas, dizem que o que é bom dura pouco…
Agora estamos nos preparativos finais para o que ainda nos aguarda. Quase tudo em relação à faculdade está pronto. Começo, então, uma outra contagem regressiva: a da volta para casa. Por mais que seja por apenas poucas semanas, não consigo deixar de sentir um friozinho na barriga quando penso nos abraços de que tanto sinto falta. Por mais que tenha medo de uma segunda despedida, acredito que será uma renovação de forças para enfrentar o próximo ano que virá pela frente. Mais um ano de aprendizados, desafios e crescimento. Mas essa história vai ficar para a próxima (prometo que ainda antes de chegar ao Brasil). Por enquanto, prometo a mim mesma curtir o último mês em Paris, os novos amigos que fiz e os meus lugares preferidos dessa cidade. A partir de 15 de Julho, próximas paradas: Bélgica, Holanda, sul da França, Barcelona, Porto, Salvador. Aguardem cenas dos próximos capítulos! E dessa vez, eu prometo: até breve!

sexta-feira, 22 de maio de 2009

É assim que eu te vejo...


Um menininho danado, curioso, ativo, inteligente, feliz. Cabelos cacheados, “dentinhos” marcantes, cara de quem esteve aprontando alguma, gargalhadas descontroladas. Aquele que, havendo silêncio na casa, suscitava uma investigação conjunta sobre o seu paradeiro (provavelmente estaria brincando com fogo ou eletricidade, fazendo “experiências” mirabolantes). Também aquele que adorava desmontar os brinquedos para ver como funcionavam e nunca conseguia fazê-los inteiros novamente, vivia a fazer “artes” nas bonecas da irmã mais velha e bagunçava todo o quarto que os dois compartilhavam. Protagonistas de brigas “homéricas”, puxões de cabelo, mordidas, beliscões, tapas e pontapés. Mas também companheiros de brincadeiras e viagens ao mundo do faz-de-conta, defensores um do outro contra o perverso e enorme mundo lá-de-fora (a gente até podia brigar, mas coitado de quem se atrevesse a machucar de qualquer forma que fosse um de nós: ia ter que se ver com o outro!).

O tempo vai passando, as brigas e discussões passam a girar em torno de outros motivos (o computador que o diga, né?), a cumplicidade vai aumentando, os papéis se afirmando (consigo agora ser irmã mais velha em vez de mãe?)… O menininho danado que eu costumava fazer de boneco quando era bebê (pobrezinha da minha mãe que tinha uma paciência do tamanho do mundo para cuidar de um e enrolar a outra que queria dar banho, alimentar e colocar o irmãozinho pra dormir) , o mesmo de quem eu costumava segurar a mão para atravessar a rua (isso se ele já não tivesse escapulido e corrido na frente porque já era “grande”), cresceu. E não só na idade não. Agora é ele quem é maior do que eu!

Não faz muito tempo, estava começando na faculdade. Agora, já está trabalhando e construindo os próprios planos. E completa hoje 21 anos. Não sei se avançará ainda mais nos seus quase 1,90m de altura, mas tenho certeza, conhecendo o sangue que corre em suas veias, que muitas lutas e muitas conquistas ainda serão alcançadas (inclusive mais “juízo”! Irmão, eu não podia perder o costume, né? Tinha que honrar o papel de irmã mais velha sim!). Menos de um mês, atrás ele mesmo me disse: “Vou virar gente! Agora sou universitário, não sou mais ‘faculitário’”! Isso porque foi aprovado no vestibular de uma das Universidades públicas de Salvador e saiu da faculdade particular em que ele tinha começado o curso. Eu sabia, irmão, que você passaria. Você só está começando! ;-)

Incrível o que a distância pode fazer com as pessoas, às vezes. No nosso caso, tornou possível nos aproximarmos (mesmo virtualmente) e percebermos o quanto somos importantes um para o outro. Muita coisa aconteceu desde o dia em que soube que ia ganhar um irmãozinho. Apesar de todas as confusões, não seríamos o que somos hoje se não existíssemos um para o outro. Juntos aprendemos a dividir, compartilhar, argumentar e também brigar pelo nosso espaço. Juntos crescemos e guardamos recordações de uma infância simples e feliz. Hoje estamos longe, mas não separados. Pois, mesmo com todas as mudanças ao longo desses 21 anos, sempre haverá algo muito forte que nos une: o amor que sentimos um pelo outro.

Você pode ser mais alto do que eu, pode completar cem anos, mas, pra mim, você será sempre o meu irmãozinho, com cara “safada”, risada escandalosa, coração puro e ingênuo. É assim que te vejo e para sempre verei. Te amo, irmão, feliz aniversário!