quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Um Novo Ano, um livro em branco

Nesses últimos dias do ano as pessoas, se realmente não ficam, aos menos se esforçam para parecerem mais sensíveis. Milhares de mensagens de bons votos circulam em cartões e e-mails, presentinhos e amigos secretos para todos os gostos, abraços e sorrisos fraternos, até o trânsito parece em alguns momentos seguir a proposta da “gentileza”.

E, em meio a essas mensagens, recebi algumas bem interessantes. Uma delas, de autor desconhecido, mas que parece se aplicar a muitos dos que conheço (agradeço á pessoa que me enviou), segue aí abaixo (claro, com alguns comentários):

“O grande barato da vida é olhar para trás e sentir orgulho da sua história. O grande lance é viver cada momento como se a receita de felicidade fosse o AQUI e o AGORA. [beleza, vivamos o momento, procuremos ser felizes, mas com muito cuidado também; nem sempre viver o momento sem pensar nas conseqüências, ou mesmo se está preparado para elas, é a melhor alternativa; aquela história de ‘melhor arrepender-se do que viveu do que do que não viveu’, até certo ponto tenho minhas dúvidas; mas de uma coisa tenho certeza: ainda que possa nos consumir por um tempo, não mata, pelo contrário, faz parte do acúmulo de experiência, do processo de auto-conhecimento, desde que se aprenda a lidar com isso].
Claro que a vida prega peças. É lógico que, por vezes, o pneu fura, chove demais..., mas, pensa só: tem graça viver sem rir de gargalhar pelo menos uma vez ao dia? Tem sentido ficar chateado durante o dia todo por causa de uma discussão na ida pro trabalho? [ah, sem dúvida gargalhar, sejam lá quantas vezes forem, é muito melhor do que ficar chateado, magoado ou triste por qualquer motivo, embora saibamos que nem sempre a vida é como a gente deseja… alguém discorda?]
Quero viver bem! Este ano que passou foi um ano cheio [nem me fale!]. Foi cheio de coisas boas e realizações, mas também cheio de problemas e desilusões [será que com todo mundo é igual???]. Normal. Às vezes a gente espera demais das pessoas [Ô, se espera…]. Normal. A grana que não veio, o amigo que decepcionou, o amor que acabou. Normal.
O ano que vai entrar vai ser diferente [inshallah, que seja melhor!!!]. Muda o ano, mas o homem é cheio de imperfeições, a natureza tem sua personalidade que nem sempre é a que a gente deseja, mas e aí? Fazer o quê? Acabar com o seu dia? Com seu bom humor? Com sua esperança? (…)
O nosso desejo não se realizou? Beleza, não estava na hora, não deveria ser a melhor coisa pra esse momento (lembro sempre de um lance que eu adoro): CUIDADO COM SEUS DESEJOS, ELES PODEM SE TORNAR REALIDADE. [Nossa, como isso pode assustar as pessoas! Amigos meus, please, cuidado com os desejos de fim de ano e durante todo ele; aquilo que desejamos tem força, tá?]
Chorar de dor, de solidão, de tristeza, faz parte do ser humano. Não adianta lutar contra isso. Mas se a gente se entende e permite olhar o outro e o mundo com generosidade, as coisas ficam bem diferentes. Desejo para todo mundo esse olhar especial. [Pois olhemos para dentro, para os lados, para cima e para baixo; vamos primeiro entender a nós mesmos e transmitir isso aos outros; choremos quando preciso, mas lembremos do que nos faz sorrir para sabermos dar a volta por cima].
O ano que vai entrar pode ser um ano especial, muito legal, se entendermos nossas fragilidades e egoísmos e dermos a volta nisso. Somos fracos, mas podemos melhorar. Somos egoístas, mas podemos entender o outro. O ano que vai entrar pode ser o máximo, maravilhoso, lindo, espetacular... ou... Pode ser puro orgulho! Depende de mim, de você! Pode ser. E que seja!!! [Isso me faz lembrar outra frase que li essa semana, também de autor desconhecido – estou exagerando nessa minha “colcha de retalhos”, mas vamos lá: o destino decide quem vamos encontrar na vida, as atitudes decidem quem fica… E que neste próximo ano, cada um de nós expresse verdadeiramente as próprias atitudes, consiga fazer a diferença pra melhor na vida dos outros, e tornar os nossos dias muito mais agradáveis e positivos! Amém e assim seja!]

Muito bem, prefiro me ater a este momento mensagem de fim de ano; este ano não vou compartilhar retrospectivas (não que eu não as faça, como a maioria dos seres humanos, mas dessa vez, perdoem-me, prefiro guardá-las num espaço mais “reservado”). Na verdade, estou mais a olhar pra frente.
Algumas brincadeiras deste fim de ano têm sido: “Vamos comemorar que este pode ser o último Reveillon! Como assim, vira essa boca pra lá! E se o ano acabar em 2012?” E todos acabam na gargalhada. Mas já pensaram se as pessoas começassem mesmo a agir como se fosse o último ano de suas vidas? Que loucura seria? Ou seriam tremendamente felizes e realizadas, ou tremendamente tristes, ou o caos se instalaria, ou todas essas coisas, não necessariamente nessa ordem. Mas, independente dessas “previsões” e “superstições”, que não é o meu caso, meu desejo é que possamos buscar nossos objetivos, nossos sonhos, nossas metas para a vida, de maneira livre, autêntica, decidida, responsável e ética. Lembrando que tem muita gente no nosso caminho buscando fazer o mesmo, ajudando quando possível, afastando-nos quando necessário, mas sendo coerentes conosco e com cada uma dessas pessoas que cruzam nosso caminho. Afinal, somos nós quem as escolhemos (podemos não escolher as que entram, as que passam, mas sem dúvida, e como disse adiante, escolhemos as que ficam).

Com os votos de um Novo Ano da cor da sua Paz, da sua Alegria, do seu Sorriso, da sua Saúde, da sua Esperança, da sua Prosperidade, da sua Amizade, do seu Amor, do seu Desejo, dos seus Sonhos, dedico a todos os meus amigos e amores, cuja escolha recíproca nos fazem permanecer na vida uns dos outros, a trilha sonora desse post (letra aqui). Que possamos escrever em cada um dos nossos livros uma história que nos dê um grande orgulho. E que nunca tenhamos vergonha nem desanimemos se precisarmos rasurar um pouquinho... Apagar, sabemos que não é possível e, mesmo que fosse, não estou certa de que valeria mesmo à pena. Mas, sinceramente, se a gente cansar de alguns capítulos, que se tornam repetitivos, que tal recomeçar com um livro novo, todo em branco?! 

E, em meio a tantos desejos, posso resumir o meu no seguinte: que o nosso Ano Novo venha com tudo! E com muito mais cores do que o arco-íris! Até 2012!

sábado, 10 de dezembro de 2011

Águias

“Certas aves, como os falcões e as águias, tem características muito especiais, sempre foram mencionadas nas tradições como símbolo de poder e sapiência. Ao contrário das outras aves, quando vêem uma tormenta, vão diretamente de encontro a ela, não se escondem, nem ficam agitadas, abrem suas asas poderosas e velozes e enfrentam a tormenta, superam as nuvens negras, a tempestade, os choques elétricos provenientes dos raios. Sabe por quê? Porque sabem que acima, para além da tormenta, está o brilho do Sol! (Talal Husseini, em Paz Guerreira)

Qual a sensação de terminar de ler um livro de mais de 700 páginas? Acho que a mesma de começar… Sobretudo se, mesmo em meio à ficção e aventura, ele te faz refletir sobre algo, te desperta algo de bom.
E de todas as passagens que marquei, a que transcrevi acima é uma das que mais me disse pelas entrelinhas. 

Quero ser mais águia. Na verdade, acho que todos queremos. Precisamos. Quero mergulhar nas elevadas profundezas das nuvens carregadas, na certeza de que logo elas já não estarão à minha frente. Quero caminhar em toda e qualquer tempestade, mesmo contra o vento, em meio a raios e trovões, na certeza de que logo a chuva vai passar e os primeiros raios de luz aparecerão.

Quero, acima de tudo, e todos os dias, encontrar o brilho do Sol como quem o vê pela primeira vez na vida. E, mesmo à noite, conseguir vislumbrá-lo no reflexo da Lua, esta que hoje está especialmente bela, especialmente próxima, especialmente iluminada.

Quero aproveitar cada sensação sobre as minhas “asas” e me descobrir voando livre, feliz outra e mais outra vez, sem amarras, sem temores, sem grades à minha volta, apenas com o vento, as nuvens e o cheiro da liberdade.

terça-feira, 29 de novembro de 2011

"Retalhos"

‎"...Mas quem disse que a gente precisa ser sempre feliz? Isso é bobagem. Como Vinícius cantou 'é melhor viver do que ser feliz'. Porque, pra viver de verdade, a gente tem que quebrar a cara. Tem que tentar e não conseguir. Achar que vai dar e ver que não deu. Querer muito e não alcançar. Ter e perder. Tem que ter coragem de olhar no fundo dos olhos de alguém que a gente ama e dizer uma coisa terrível, mas que tem que ser dita. Tem que ter coragem de olhar no fundo dos olhos de alguém que a gente ama e ouvir uma coisa terrível, que tem que ser ouvida. A vida é incontornável. A gente perde, leva porrada, é passado pra trás, cai. Dói, ai, dói demais. Mas passa. (...)"
Caio Fernando Abreu

Um dia você vai estar sozinho, vai fechar os olhos e tudo estará negro. (…) Nessa fração de segundos, quando seus pés se perderem do chão, você vai se lembrar da minha ternura e do meu sorriso infantil. (…) E quando você finalmente discar meu número, ele estará ocupado demais, ou nem será mais o mesmo, ou até mesmo que eu não queira mais te atender. E se você bater na minha porta, ela estará muito trancada, e se aberta, mostrará uma casa vazia. Seus olhos te ensinaram o que é lágrimas, aquelas que eu te disse que ardiam tanto. O nome do enjôo que você vai sentir é arrependimento, e a falta de fome que virá se chama tristeza. Então, quando os dias passarem e eu não te ligar, quando nada de bom te acontecer, e ninguém te olhar com meus olhos encantados, você encontrará a famosa solidão. A partir daí, o que acontecerá, chama-se surpresa. E provavelmente o remédio pra todas essas sensações acima... É o tal do tempo em que você tanto falava!

Tati Bernardi
 "É loucura odiar todas as rosas porque uma te espetou. Entregar todos os teus sonhos porque um deles não se realizou, perder a fé em todas as orações porque em uma não foi atendido, desistir de todos os esforços porque um deles fracassou. É loucura condenar todas as amizades porque uma te traiu, descrer de todo amor porque um deles te foi infiel. É loucura jogar fora todas as chances de ser feliz porque uma tentativa não deu certo. Espero que na tua caminhada não cometas estas loucuras. Lembrando que sempre há uma outra chance, uma outra amizade, um outro amor, uma nova força. Para todo fim um recomeço!"
O Pequeno Príncipe/Antoine Saint-Exupéry
“Meu olho intemporal me ensina que estou há muito fora do mundo (…) chega de viver ‘ad infinitum’ no espírito.”
Anjo Damiel, do filme Sob o Céu de Berlim

Devem estar estranhando essa reunião de pequenos trechos de autores diversos, que não eu (ainda por cima sobre temática tão “suspeita”). Poucas vezes fiz isso, mas gosto de reconhecer aquilo que me toca. E compartilhar com os que estão no meu caminho, sobretudo os que permanecem nele (nesse caso, foi o contrário – é um post muito mais escrito por outros do que por mim, e compartilhado pelos que estão no caminho comigo do que de mim para eles). Daí, resultou essa minha “colcha de retalhos” aí em cima. Mas o porquê… Já vão entender (ou não… afinal, que tipo de ser humano seria eu, se fosse compreensível?).

Engraçado como uns meses sem escrever podem representar uma vida inteira quando se pára pra pensar. Peço imensas desculpas, pois embora este aqui seja um grandessíssimo prazer, eram mais tempos de viver do que de escrever… Tempos de experiências únicas, intensas, mas também efêmeras (claro, elas tinham que ceder espaço a algumas outras, pelo menos até que assuma/m lugar aquela/s mais duradoura/s). A interrogação, que se transformou numa exclamação, depois numa interrogação novamente, numa exclamação interrogativa e, subitamente, num ponto final. No final de um ponto que dá início a outros. Outros que começarão a ser escritos. De novo. Tudo isso num estranho espaço surgido no tempo. Inesperado, confuso, estranho…


Apesar do tempo de viver ultrapassar o tempo de escrever, o tempo de ler e refletir se entrelaça a todos os demais. Por isso, acabei por me perceber, em semanas subseqüentes, reunindo pequenos trechos de escritos alheios (por mais batidos e repetidos que sejam), com elevado teor de auto-identificação e que, semanas após semanas, tomavam a forma que havia dentro de mim. Antes um rascunho bem rasurado (daqueles que se risca e amassa várias vezes, que acredita na vida mais do que na existência de uma dita felicidade – mas o que ela seria senão feita de momentos?), transformando-se numa versão mais definida (ora expressando um desejo de reciprocidade, ora um sentimento de esperança), e finalmente, chegando à possibilidade de ser publicado (re-afirmando uma decisão de viver e – por que não? – de ser feliz).


Impressionante o poder das palavras (ou da falta delas)… Podem iludir, entristecer, desnudar, confundir, afastar e fazer perder, mas também, como mágica, fazem acordar, pensar, acreditar, unir, sorrir e construir. Há quem diga que é preciso ter dom para lidar com elas, mas na minha sincera opinião, acho que o mais importante é respeito, prudência. E o meu respeito por elas só faz crescer. Talvez por tê-las usado em demasiado de uma única vez (só não posso dizer que foi em vão, porque se a gente acredita no que fala, lê, escreve, ouve ou canta, sempre vale à pena), precisei de um tempo maior para o “restabelecimento do estoque” (daí a demora em escrever novamente). Palavras faladas, escritas e musicadas, que certamente sempre têm o seu efeito, mas que devem ser religiosamente respeitadas. Em alguns momentos, somente um afastamento verdadeiro permite essa reconciliação. E aqui estou, depois de algum tempo, misturando-me a elas novamente, mas sabendo exatamente que o mundo a que pertencem não é apenas um, mas vários... Tantos quantos aqueles que as escrevem, ou lêem, ou expressam, ou sentem, e precisamos escolher dos quais fazer parte. Lição aprendida (será?).


Dos meus “retalhos”, observei: fases, momentos, sensações, pensamentos, resoluções, esclarecimentos… Surgiram-me nessas últimas semanas quatro. Podiam ser muitos mais. Coincidentemente, foram os tais. E a cada dia que um me aparecia, sem que eu mesma fosse buscar, mas trazido por alguém (cada um num canto do mundo), com um intervalo de tempo suficiente pra me fazer sentir o que lia, conseguia perceber que já não era ilusão o que partilhava, mas sim uma verdade aquilo que dentro de mim se escrevia.


Faltam-me ainda algumas palavras, algumas outras se re-definem, mas a certeza é de que, semana após semana, muitos outros “retalhos” serão “costurados” e alguns outros voltarão a ser de próprio punho escritos. Se já não estão sendo.

P.S.: Dessa vez não houve Clarice entre os “retalhos”, mas de tudo o que ficou desde o último post, agora está “A descoberta do mundo” na minha humilde biblioteca.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Sábia Clarice...

"Mas há a vida que é para ser intensamente vivida, há o amor. Que tem que ser vivido até a última gota. Sem nenhum medo. Não mata."

Engraçado... Sempre utilizo as citações de Clarice (Lispector) ao longo dos meus dias, nas redes sociais de que participo (leia-se "facebook"), mas um dia me perguntaram: "Que livro dela você indicaria para um principiante?". E apesar de adorar a autora, me dei conta de que só tinha lido dois livros (um deles para o vestibular e outro era uma coleção dos seus contos selecionados por pessoas famosas). Que tipo de fã eu sou, hein? Aproveito para registrar, se alguém quiser me dar um presentinho fora de hora: o livro "A decoberta do mundo" é bem-vindo!

É ainda mais engraçado como me identifico (e não sou a única, sem dúvida) com tudo o que sei que veio dela. A cada dia encontro algo que parece cair como uma luva sobre mim. Porque, como a mesma pessoa que me fez essa pergunta identificou (e vejam só, posso dizer que era um homem e de um país que não fala português, apesar de entender bem o idioma), Clarice consegue exprimir tão bem a alma e a condição humana...

E, neste exato momento, percebo que a minha alma está saindo de um estado de hibernação, cheia de curiosidade pelo que pode estar por vir. Curiosidade pela vida, pelo mundo, pelos sentimentos... Não deixa de hesitar (ela sempre teve esses momentos de fraqueza, chega mesmo a ser medrosa em algumas situações), mas se tem uma coisa que não mais permite é se dominar pelo medo. E tornou-se tão teimosa que hoje realmente não deixaria nada a impedir de experimentar algo novo, por mais que doa no princípio, ou no meio, ou no fim. Quer viver, quer aprender, quer conhecer, e SER.

Nunca lidou bem com incertezas, mas tem aprendido a conviver e a lidar com isso em todas as esferas (pessoais, profissionais, sentimentais, etc.); foi criada para o convencional, mas a cada dia tenta se ver e se colocar mais "fora da caixa" e com pessoas na mesma situação; gosta de fazer o que quer e não suporta rotina, mas também aceita a obrigação e as necessidades do dia-a-dia. Aprende em doses homeopáticas (e com a ajuda necessária) a se tornar mais paciente e confiante, a acreditar verdadeiramente no que há de bom nas pessoas e no mundo, e a descobrir o que há de bom em si mesma e que desperta o olhar do "outro".

Esse outro que ainda é um ponto de interrogação, com possibilidades de se tornar uma exclamação, um ponto de continuação, um traço de ligação, tudo ao mesmo tempo, e ainda voltar ao ponto de partida. Ainda não se sabe... Mas pra que saber? Ô alma impaciente essa minha! Ô alma desconfiadinha... Calminha!! Precisa mesmo aprender a se deixar levar, a não planejar tanto, a sonhar com os pés um pouco fora do chão de vez em quando. Até tentou, não teve muita sorte, mas vocês sabem, desistir não é seu lema. É sempre preciso um tempo para se reestruturar (a tal hibernação que comentei no início), mas quando menos se espera, o inverno acaba (pra quem mora nessa cidade, ele nem chegou, mas como num dos posts anteriores, ele não necessariamente segue a ordem cronológica dentro da gente - nossas "almas" que o digam!).

Pois a alma minha segue em busca. Não sabemos ao certo do que, mas sabemos que vai encontrar. Quer dizer, ao que parece, será encontrada. Ou ambas as coisas. Ou já foi, há muito tempo, e nem sabia... O que importa é que, como dizia Clarice, a vida, o amor, têm que ser vividos até a última gota, sem medo. Não mata. Mesmo. Não mata. Pelo contrário, fortalece.





domingo, 19 de junho de 2011

Bruxa, Fada, Anjo, ou o que preferir...

Esse post é um presente. Não exatamente uma promessa, mas vou oferecer à pessoa que o desencadeou. Não exatamente a que o inspirou, mas a que acendeu a primeira fagulha e fez com que eu desse um jeito de acender o fósforo, depois desses meses. É um presente, como retribuição de um outro presente. Um livrinho. Pequeno, simples, despretensioso, e que foi escrito como resultado de uma promessa. No meu caso, como o livro demoraria bem mais de sair, escrevo um post, que por si só, levou exatos três meses para vir à tona. Não que eu tenha demorado todo esse tempo escrevendo, na verdade, só algumas horas, entre vais-e-vens no computador…

Não havia nenhuma novidade naquele livro, com metáforas interessantes e uma atmosfera otimista. Alguns poderiam pensá-lo como uma espécie de "auto-ajuda", mas para mim era apenas uma narrativa, de uma conversa entre duas pessoas. No entanto, nada que não seja bom de “relembrar” de vez em quando. Foi quando terminei de o ler que pensei se estava mesmo colocando em prática tudo aquilo em que eu já acreditava e procurava praticar, e que vi ali escrito (e não só ali, pois de repente, resolvi reler alguns dos posts antigos, desde o primeiro, ainda em 2008, e, me revisitando, reconheci em mim algumas daquelas palavras do livrinho).

Por exemplo, ver todas as coisas com que nos deparamos e que nos acontecem por diferentes perspectivas. Para não entrar em muitos detalhes (íntimos e desnecessários), tomemos somente o fato de eu ter passado tantos meses sem dar as caras por aqui, depois de ter me dado ao trabalho de repaginar e de dar um novo título ao blog. Poderia ser preguiça (mental e/ou física) de escrever, o desejo de dedicar o tempo a outras atividades (físicas, laborais, lazer) ou mesmo ao ócio, um grande aumento na quantidade de afazeres, a maldosa rotina (aquela que usamos como máscara para tudo aquilo que não temos coragem de fazer), a falta ou o excesso de grandes acontecimentos (ou mesmo pequenos, mas marcantes), uma (des)motivação pontual ou generalizada para o que quer que seja, a vontade de tirar do papel (ou, neste caso, das telas do computador) e realizar… Poderíamos continuar infinitamente a enumerar possíveis razões. Não há certo, nem errado, apenas diferentes maneiras de se ver a coisa. O que importa realmente é mantermos essa capacidade de ver sempre “outros lados” da mesma moeda.

Uma das metáforas de que gostei particularmente no livrinho foi a ideia de que deveríamos levar a vida como turistas. E como assumi esse como um papel oficial na minha vida desde que experimentei o gostinho pelas viagens, identifiquei-me prontamente. Afinal, quando viajamos, “fazemos de tudo para a nossa viagem ser agradável, passeamos pelos locais mais bonitos, experimentamos as novidades e carregamos apenas o essencial, porque sabemos que estamos apenas de passagem, que cedo ou tarde iremos embora”. E na nossa vida, será que é mesmo assim que agimos? Confesso, mesmo intuitivamente, até tenho tentado. Mas não sempre. Estamos já acostumados a buscar o “ter”, o acumular, o alcançar mais, o construir melhor. Mas em que sentido? Acho que está mesmo aí o segredo… E ainda nos surpreendemos quando encontramos quem pense diferente. Porém não negamos que muitas dessas raras pessoas, capazes de transformar e de se transformar, tenham um efeito impressionante na gente (exerceríamos nós também essa nossa propriedade?).

Engraçado que no mesmo dia em que terminei de ler o livrinho, havia assistido a um filme (o belíssimo “A Fonte da Vida”, de Darren Aronofsky, de “O Cisne Negro” e “Requiem para um sonho”), que, dentre outras coisas, me fez refletir justamente sobre a capacidade que temos de enxergar sob diferentes pontos de vista, ainda que em situações limite teimemos em permanecer restritos a um deles. Em seguida, aparecem amigas essenciais, com as quais surgem conversas despretensiosas, mas com um poder igualmente transformador.  É claro que precisava registrar. Acredito que as coisas não são por acaso. E, voltando ao livrinho, “demolir nossos castelos mentais permite-nos evoluir, pois quando um é derrubado podemos construir outro melhor com a experiência adquirida”.

Como boa cinéfila que sou, há dois dias assisti também a “Meia-noite em Paris” (Woody Allen), o que pra variar, me fez sair do cinema com um misto de sentimentos e sensações. Saudosismo (de tudo e de todos), encantamento (tanto brilho, tanta luz…), desejo de voltar a estar lá e a viver lá (talvez em outras circunstâncias), o ritmo das caminhadas ao longo do Sena (sempre com conversas amenas e fotografias valorizadas), as cores de Monet no seu próprio jardim e nos museus da cidade (definitivamente, ele é o meu preferido), o gosto do primeiro chocolate quente em Trocadéro e das noites regadas a champanhe (que meus amigos gentilmente misturavam com sorvete de limão ou suco de laranja para que eu os acompanhasse por mais tempo – e não digam que era um crime: a mistura fica muito boa e a champanhe lá é mesmo muito mais barata!)…

Com tudo isso, as pessoas me perguntam por que voltei. E voltemos à questão do princípio, vejamos as coisas por vários pontos de vista. Podia ser por falta de opção, por medo de ficar, porque meus amigos já se iam todos embora, mas também porque precisava viver mais um tempo em Coimbra, reencontrar pessoas, conhecer algumas novas, mudar-me para Lisboa, viver mais algumas experiências, começar a trabalhar onde hoje me encontro, retornar ao Brasil, aprender a reconstruir, me readaptar, conhecer mais gente, etc etc etc. Como disse lá acima, não vou me detalhar muito. Mas tenham certeza, estou feliz por ter voltado (pelo menos, por hora), por uma série de outros motivos que poderia listar, mas que não vêm ao caso neste momento.

Onde e como quer que eu viva, quero fazê-lo por minha própria escolha, com as pessoas que realmente fazem a diferença na minha vida, sendo titular do meu próprio time, e não apenas vendo-o jogar. Novamente, vendo as coisas por diferentes pontos de vista, vencendo ou não, é mesmo mais divertido quando a gente participa, realmente joga (e se joga), faz aquilo que tem vontade, consegue motivar toda a equipe a jogar (e, sobretudo, a se divertir) junto.

É por isso que agradeço pelo presentinho atrasado de aniversário. Por mais simples e despretensioso que fosse, retrata pessoas inesperadas que surgem em nossas vidas, coisas inesperadas que podemos (e devemos) fazer de vez em quando para temperá-las, e momentos especiais que podemos viver se estivermos com todos os sentidos bem “abertos”.

P.S.: O “livrinho” mencionado, como tenho carinhosamente chamado, é “O Livro da Bruxa” (Roberto Lopes), que se encontra esgotado para vendas, mas é facilmente encontrado na internet. A sua proposta, realmente, não parecia ser tornar-se um best-seller, afinal seu autor não se pretendia um escritor. Trata-se mesmo de um presente para aquela que ele chamou carinhosamente de "bruxa", que sob diferentes pontos de vista, poderia ser uma fada, um anjo, “simplesmente” uma pessoa especial. Eu dedico esse post à(s) minha(s) que, com certeza, sabem quem são.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

"Você é a pessoa por quem está procurando"

Recentemente, li essa citação em algum lugar, descobri que era da poetisa norte-americana Audre Lorde, e me pus a refletir sobre a essência do seu conteúdo. Coisa de psicólogo, talvez... Ou coisa de alguém que conseguiu vivenciar uma série de sentimentos contraditórios nos dois últimos meses e permanecer inteira. Seja lá qual estratégia eu tenha usado, ou venha usando, é assim que eu me sinto: inteira. Buscando cada vez mais e profundamente conhecer, respeitar, admirar e ser eu mesma.


Tenho esperança de que 2011 reserve boas surpresas, afinal, mesmo diante de uma ou outra decepção, ele já começou bem. Entretanto, não só de esperança vive o ser humano. Há que ser sujeito, protagonista da própria vida. E a melhor forma de conseguir isso é começar olhando pra dentro de si mesmo (só não se tranque, tá? ou corre o risco de não conseguir enxergar as oportunidades que o mundo oferece), buscando o que realmente gosta, o que não mais suporta, o que gostaria de mudar, o que pretende da vida. O resto é consequência. Portanto, ame-se, cuide-se, respeite-se, sinta-se.


Essa semana, assisti finalmente ao filme "Cisne Negro". Como um filme forte que é, deixa as pessoas reflexivas, provoca questionamentos e projeções. E num determinado momento, pessoas como eu chegam a se imaginar em cenas parecidas. Não propriamente as do "surto", afinal, ainda nos consideram pessoais "normais", bem "adaptadas"... (e o que é isso mesmo???). Também não exatamente como bailarina (apesar de algumas de nós viver a dança intensamente), mas sim como alguém que passou a maior parte da vida sempre buscando o melhor de si mesma, mantendo ao máximo o seu "cisne negro" escondido em algum canto só para agradar ao "outro". 


Mas aos poucos vou-me apercebendo que, pelo menos eu, já não sou tão assim. Continuo buscando o melhor, mas de maneira tranquila, divertindo-me enquanto isso. E já não me importo nada em ter que agradar aos outros. Sejam eles que outros forem. Então, descobrindo-me a pessoa que precisa e merece ser vista por mim mesma, retomei a minha dança, continuei a trabalhar em projetos de que gosto e que demonstram ter um impacto positivo na vida das pessoas, terminei de ler alguns livros que há tempos se encontravam em fila de espera, comecei a fazer pilates, comprei meu carro e finalmente voltei a frequentar lugares e pessoas que a vida aqui não permitia em certas horas,etc, etc (a lista continua, ainda em construção, já que o ano mal começou, né?)... 


Mais do que nunca, percebi que gosto mesmo do que faço; que estou feliz com a minha profissão; com o meu desejo de realizar, construir e contribuir; com a minha vontade e esforço de enfrentar meus medos, fraquezas e angústias; de ser cada vez mais amiga do meu irmão, dos meus pais e dos meus amigos; de me tornar uma pessoa melhor,  uma profissional realizada, e uma mulher mais livre e confiante.


Não vou dizer que essa sensação me acompanha 100% do tempo, afinal, toda mulher tem seu dia meio baixo-astral, nem que seja na tpm. Mas o importante é estar tranquila consigo mesma, com a própria consciência, com os próprios desejos. E é a mensagem que eu deixo no meu primeiro post do ano, a você, que caminha nessa estrada (e não compreenda mal, não estou fazendo apologia ao isolamento social ou de qualquer outro tipo; pelo contrário, é apenas um incentivo a que cada um busque se conhecer melhor e ser melhor consigo mesmo, e em consequência, consiga ser melhor junto aos outros): não adianta olhar pros lados quando você não consegue primeiro olhar pra si mesmo; seja lá o que você procura ou busca na sua vida, tenha certeza, não é mais importante do que VOCÊ, a única pessoa capaz de te fazer genuinamente feliz. Mas lembre-se: não desanime se cruzar com alguém que te faça desacreditar nisso, ou que não tenha o mesmo discernimento sobre si mesmo; apenas se dê uma pausa pra "descanso", sacuda a "poeira" e continue a caminhada (afinal, ninguém percorre sozinho a estrada).

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

2010: O ano em que tive duas primaveras…

Já em Setembro me dei conta. Era a minha segunda primavera do ano. Com um gostinho diferente, é claro, mas com a mesma sensação de um mundo mais quentinho e colorido. Tudo bem que, por essas bandas de cá, o mundo é sempre mais quentinho. E as cores são mesmo diferentes, nem melhores nem piores, apenas diferentes... Mas nós já falamos sobre isso anteriormente, não quero me tornar repetitiva.
Esse é um período bem típico para reflexões e retrospectivas. Embora pra mim, não haja um período específico, vocês todos são testemunhas disso. Basta uma sementinha ser plantada, ou mesmo esquecida ao relento, e assim surgem as minhas reflexões. Às vezes geram bons frutos, mudanças e novas atitudes, outras vezes, trazem angústia e ansiedade. Depende das circunstâncias do ambiente, da forma de cultivo e do cuidado que receberam. Florescem, adormecem e voltam a florescer, assim como acontece na Primavera. Depois de ultrapassar as intempéries do inverno, o frio, o vento, a chuva (até a neve), eis que despertam novamente as sementinhas.
Esse ano não tive Outono, por exemplo. Embora tenha nascido nessa época do ano, este ano fui presenteada duas vezes com a minha estação preferida. E não tenho do que reclamar. Afinal, mesmo ela se despedindo essa semana, começo a viver o meu segundo verão do ano também.
Sei que essa conversa parece até meio esquisita (ultimamente a confusão é um sentimento que tem aparecido de vez em quando). Mas, na verdade, tudo isso é porque percebi que neste ano, apesar de ter vivido grandes mudanças na minha vida, não quis mesmo viver o “Outono”. Quis, pela primeira vez, em muito tempo (tanto que já nem me lembro), fazer as coisas acontecerem e ver logo os resultados, por mais sofrido que possa ter sido em alguns momentos. É claro que nem sempre as coisas acontecem do jeito que a gente imagina, deseja ou planeja, mas posso dizer que em alguns aspectos consegui. Este ano, mais uma vez, tive algumas surpresas muito boas, outras nem tanto, conheci lugares, encontrei e reencontrei pessoas, morei e trabalhei onde e com quem queria, reuni amigos, planejei e concretizei sonhos meus e de outros, apresentei alguns dos meus lugares preferidos a pessoas queridas, vivi e revivi momentos, me despedi de amigos e irmãos, voltei a ver alguns deles, me apaixonei pelo mundo, pela vida e pelas pessoas, olhei pra mim mesma, olhei para o outro, me decepcionei (e possivelmente, fiz o mesmo a alguém), me reergui (coisa que tenho feito dia-a-dia, realmente), voltei um pouco atrás para mais adiante conseguir avançar com mais força e coragem. Simplesmente, me permiti, vivi, amei, chorei, sorri, fui fiel à mim mesma e à tudo em que acredito. E nem por isso deixei de me arrepender também, pelo dito e pelo não dito, pelo feito e pelo não feito, pelo criado e pelo imaginado. Isso tudo faz parte. Dizem que é melhor se arrepender do que se fez do que daquilo que não se fez. Eu acho, sinceramente, que ambas as coisas podem trazer arrependimento. O importante é aprender algo com elas.
Mas, ao contrário do que alguns poderiam pensar, mesmo não tendo desejado viver o “Outono” (embora ele faça parte das nossas vidas, querendo ou não), não deixo de pensar na sua importância. Todos nós precisamos de um momento de “pausa” para balanço, para repensar, para se reestruturar e se preparar antes de seguir adiante. O perigo é viver eternamente nessa zona e correr o risco, seja lá por que motivo for (medo, insegurança, descrença, resistência), de deixar as oportunidades de sermos felizes passarem. Pode ser que coincida ou não com a época do ano, que venhamos de outros fusos horários, que vivamos um ano menos “certinho”, mas a verdade é que todos nós passamos por todas as estações, todos os anos (e, acredito, não necessariamente na ordem natural em que as conhecemos).
Eu, por exemplo, acredito que o meu “Outono” tenha acontecido rapidamente entre a Primavera e o Verão esse ano. Na verdade, acho que ele ainda está se despedindo, para dar lugar ao Sol forte e poderoso que há-de continuar a brilhar na minha vida. E é isso que tento alimentar em mim... Fico feliz pelo inverno ter durado “pouco”, sobretudo no início do ano, com direito a neve e tudo, bem como por eu ter conseguido passar por ele e sair inteira. Pois é, as estações da nossa vida, ainda que tendam a acompanhar, não necessariamente seguem o ritmo e o padrão da natureza.
Agora me preparo para revivê-las a todas, sempre tentando alimentar, mesmo nos momentos mais difíceis, em que as lentes negativas tendem a nos dominar, a esperança e expectativa de bons ventos, luz suficiente, terra fértil e água na medida certa, para que as sementinhas plantadas cresçam firmes, fortes e que continuem trazendo momentos de alegria para os que estão à sua volta, mas sobretudo para mim mesma, mais do que nunca a personagem principal da minha vida. Não é fácil, mas é uma questão de escolha...
Desejo a todos que cada “estação” seja muito bem vivida e refletida. Que este Natal seja muito feliz, em volta das pessoas que amamos e que verdadeiramente nos amam e se importam conosco, e que a chegada de 2011 seja mesmo um anúncio de boas novas! Até a próxima!

sábado, 2 de outubro de 2010

Metamorfose?

Há sempre um momento da vida em que acordamos nos sentindo como um ser estranho, esquisito, diferente, como se tivéssemos patas ao invés de braços e pernas, ou carapaça ao invés de um esqueleto, como se não pertencêssemos àquele ambiente, ou àquela parte da natureza. E é assim que Gregor acorda num certo dia. Sem conseguir sequer se mexer, sem encontrar os próprios braços e pernas, sem conseguir se enxergar ou ser visto pelos outros. Como um inseto, asqueroso e insignificante.

O personagem de Kafka pode ter sido criado há cerca de 100 anos, sem a mínima intenção de se tornar público, mas que continua atual, muitos de nós podem dizer. Numa época em que as exigências são cada vez maiores, sobretudo aquelas auto-direcionadas, e a importância das pessoas restringe-se ao que elas têm ou são capazes de realizar, sem dúvida de que Gregor poderia ser qualquer um de nós...
Ganhei um exemplar em francês de "A Metamorfose", de Franz Kafka, de uma grande amiga, na nossa primeira semana em Lisboa, como lembrança da sua visita à casa do autor em Praga, na República Tcheca. Confesso que a intenção de me fazer treinar o francês foi excelente, até porque o livro não é nada longo (e eu recomendo vivamente, seja lá em que idioma for), mas é claro que precisei intuir alguns trechos e pesquisar depois o seu significado. De todo modo, acredito que não haja quem não se transforme ou quem não se dê conta da sua metamorfose diária lendo um livro como esse.

Mas, provavelmente, esse não é o alvo preferido das pessoas, em tempos de "Comer, Rezar, Amar". Atenção: não pretendo aqui analisar ou criticar o livro, longe disso, até porque AINDA não o li (vi o filme e, mesmo concordando que se tratava de uma espécie de "comédia romântica auto-ajuda", que não necessariamente corresponde ao livro, eu não posso de nenhum modo dizer que não gostei). Por mais "nada a ver" que uma coisa pareça ter com a outra, o fato de eu ter assistido ao filme tendo acabado de ler "A Metamorfose", me fez pensar em por quê temáticas como essas atraem tanta gente. A constatação da metamorfose física e moral que sofremos dia após dia em nossa sociedadede, de que a vida que se tem não é exatamente aquilo de que se gostaria, ou que tudo o que se faz é apenas mais por acomodação à uma realidade confortável, ou para agradar ou corresponder às expectativas do outro, do que efetivamente por um desejo verdadeiro. Esse "apego" pode ser a qualquer coisa, a qualquer pessoa, a questão é que, de uma forma ou de outra, ele existe.

Muitas vezes, sentimo-nos incapazes de reverter a situação, é bem verdade. Mas, quando finalmente nos damos conta, ou nos tornamos coadjuvantes na nossa própria vida e mesmo na dos outros, deixamos de nos enxergar em nós mesmos, nos sentimos como insetos insignificantes, e vivemos um dia após o outro, à espera de que algo miraculoso aconteça; ou procuramos nos desfazer das nossas amarras, nos libertamos das nossas carapaças, enfrentamos os outros insetos, partimos em busca de nós mesmos e daquilo que acreditamos, pelo menos naquele momento, que nos trará a tão almejada felicidade.

Falar (ou, no caso, escrever) é mesmo muito mais fácil do que colocar em prática. Mas, não se trata de uma receita culinária ou uma bula de remédio, cada um encontra o seu próprio caminho. Gregor acabou "morrendo" na sua acomodação e pelo descaso dos outros diante da sua metamorfose "ao contrário", de ser humano a inseto. Liz Gilbert abandonou a vida estável e confortável para conhecer lugares que sempre sonhou. Outros começam uma terapia, um curso, engajam-se num trabalho voluntário, aproximam-se de uma religião, plantam uma árvore, encontram um amor, escrevem um livro...

As possibilidades são infinitas. O importante é, pelo menos, ter consciência de que elas existem, e que, mesmo envolvendo sempre um outro, no fim das contas, a escolha é nossa.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Renovando...

Pronto. Decidido. E sacramentado. O blog agora tem outro nome. Continuamos na estrada, percorrendo o caminho (espero mesmo que um longo caminho). Mas, mesmo sendo este um espaço de divagações compartilhadas, digamos que seja este um caminho de mim, para eu mesma. Na verdade, analisando bem, desconhecido ou não, o destino sempre foi esse mesmo, então, não há tanta diferença assim, no fim das contas.
A rota é de mim, mas todos (ou quase todos) são bem-vindos. Os que me acompanham, os que gostariam e não podem, e até os que não têm a menor vontade. E quando me refiro a “mim”, quero dizer tudo o que isso implica (embora esse “tudo” ainda esteja bem “em aberto”), daí horas divagarmos sobre a vida, sobre o tudo e o nada, sobre as pessoas, sobre os sentimentos, sobre o trabalho, sobre os estudos, sobre a família, sobre os amigos, enfim, sobre qualquer coisa, e assim por diante (aliás, agradeço aos meus companheiros de viagem, que, com certeza, têm uma participação especial nesse “re-batismo”).
Nada melhor mesmo que uma renovação básica de vez em quando. Comecei pelo espaço físico em que vivo, agora quero renovar a mim mesma (vamos ver até que ponto vai essa coragem). De todo modo, é justo repaginar o blog também. Afinal, esse é o milagre da vida: renascer, renovar, reviver, sem deixar de ser.
Talvez o clima que tenho vivido ultimamente por aqui tenha impulsionado um pouco mais essa mudança. A vida nova que chega entre nós, que se renova em cada um de nós, que nos torna novamente crianças quando nos vemos definitivamente adultos. O recomeço de um ciclo, a oportunidade de conhecer gente nova, de enfrentar desafios diferentes, de reencontrar partes de nós mesmos, em lugares antes improváveis.
Por onde vou me levar, não sei ao certo. Mas sei pelo menos aonde quero ir, e quem quero levar comigo. Melhor assim. Se todos os passos fossem conhecidos, o caminho não seria tão interessante, e a rota não seria tão envolvente.
Aos que quiserem seguir junto, basta dar o primeiro passo, as mãos já estão estendidas.

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Se, Quando, Enquanto...

Estive pensando esses últimos dias… Será que está na hora de mudar o nome do blog? Afinal, dois anos atrás, quando escrevi o primeiro post, não parecia existir nome mais apropriado do que Route de l’inconnu (Rota do Desconhecido). Mas, e agora? Será que ainda faz sentido?
Bom, se tem uma coisa para a qual tenho tido tempo ultimamente é de pensar. Se vivi a fase do “Se”, do “Quando”, agora vivo a fase do “Enquanto”. Enquanto me readapto, enquanto me reoriento, enquanto vejo e revejo as pessoas, enquanto busco novas formas de vida, enquanto reconheço os lugares, enquanto…
Enquanto, conjunção subordinativa temporal, significa “durante o tempo em que”, “ao mesmo tempo que”. E, enquanto a mudança é elaborada (porque já dizia nosso amigo Heráclito, essa é mesmo uma das únicas constantes em nossa vida), o mundo continua a girar, a vida continua a acontecer. Isso porque não se pode mais perder tempo pensando no “Quando” ou no “Se”. Independente de como as coisas aconteçam, inesperadas ou não, desejadas ou não, planejadas ou não, é no famoso “aqui e agora” que precisamos estar presentes.
Mais do que imaginar como será a vida daqui a um mês, três meses, ou um ano, onde vou estar ou com quem vou estar, tenho tentado vivê-la a cada dia, aproveitar os que estão perto (pessoal ou virtualmente), e assumir a responsabilidade pelas minhas escolhas. E, por mais cliché que possa parecer, é mesmo quando assumimos as consequências de tudo o que decidimos (ou mesmo daquilo que optamos por não decidir) que passamos a lidar melhor com o mundo à nossa volta. Aliás, esse tem sido um tema recorrente em conversas inicialmente descomprometidas e despretensiosas, mas que, surpreendentemente, se tornaram parte essencial dos meus últimos dias.
Como costumo dizer de uns tempos para cá, e por experiência própria, a vida pode ter várias cores, pode ter uma só, ser cinzenta ou em preto e branco, tudo depende do nosso ponto de vista. E da forma como decidimos enxergá-la. Como boa psicóloga que sou (e, mais uma vez, por experiência própria), é claro que reconheço que nem sempre é fácil enxergar o mundo colorido, ou ver oportunidades onde a maioria das pessoas tende a ver problemas. Muitas vezes precisamos de uma “ajudinha”. Por vezes, através de um acontecimento, uma situação qualquer, de um amigo(a), um companheiro(a), um colega de trabalho, ou mesmo de um profissional. Mas, a verdade é que ela pode surgir de onde a gente menos espera (basta estarmos abertos para sabermos aproveitá-la).
E, no momento em que conseguimos ver a realidade de maneira mais leve, conseguimos também transformá-la. Só não podemos ficar à espera de algo ou alguém para que isso aconteça. Vivemos e (re)descobrimos as cores da vida enquanto transformamos a nossa realidade e construímos a nossa experiência enquanto vivemos.
Passada (ou iniciada) a divagação filosófica, voltemos ao motivo deste tópico. Chegamos a uma grande interrogação nesse momento (é claro que enquanto isso, vou resolvendo uma série de outras coisas)… Será que o nome do blog ainda corresponde à realidade?
De certo modo, posso dizer que sim. Por mais que conheçamos o destino da nossa viagem, a estrada sempre nos apresentará algo inesperado, com o qual nunca lidamos antes, enfim, o desconhecido. E, por mais que voltemos ao “ponto de partida”, já não somos os mesmos. Já conhecemos outras cores, já vemos o mundo de outra forma. Hoje, procuro escolher as cores com que quero ver o mundo (embora, como tudo na vida, elas vão mudando e se acrescentando à medida que conheço novas), tendo sempre em mente que dessa escolha dependerá o resto do meu dia. Se vou lidar com problemas, oportunidades e/ou soluções, é mesmo uma escolha minha e só minha.
Por outro lado, se já não sou a mesma, o blog provavelmente também não é, nem voltará a ser. Possivelmente, as temáticas também mudarão (se já não mudaram), os personagens e companheiros de estrada vão se alterando, a trilha sonora evoluindo. Já não somos os mesmos (o blog e eu), mas isso não significa que deixemos de ser quem somos. Um instrumento de “partilha”, uma “menina” crescida, um espaço de “catarse”, uma mulher em “desenvolvimento”. Assim, se ainda sou eu, mesmo diferente, também ele será ele, mas igualmente diferente.