terça-feira, 29 de novembro de 2011

"Retalhos"

‎"...Mas quem disse que a gente precisa ser sempre feliz? Isso é bobagem. Como Vinícius cantou 'é melhor viver do que ser feliz'. Porque, pra viver de verdade, a gente tem que quebrar a cara. Tem que tentar e não conseguir. Achar que vai dar e ver que não deu. Querer muito e não alcançar. Ter e perder. Tem que ter coragem de olhar no fundo dos olhos de alguém que a gente ama e dizer uma coisa terrível, mas que tem que ser dita. Tem que ter coragem de olhar no fundo dos olhos de alguém que a gente ama e ouvir uma coisa terrível, que tem que ser ouvida. A vida é incontornável. A gente perde, leva porrada, é passado pra trás, cai. Dói, ai, dói demais. Mas passa. (...)"
Caio Fernando Abreu

Um dia você vai estar sozinho, vai fechar os olhos e tudo estará negro. (…) Nessa fração de segundos, quando seus pés se perderem do chão, você vai se lembrar da minha ternura e do meu sorriso infantil. (…) E quando você finalmente discar meu número, ele estará ocupado demais, ou nem será mais o mesmo, ou até mesmo que eu não queira mais te atender. E se você bater na minha porta, ela estará muito trancada, e se aberta, mostrará uma casa vazia. Seus olhos te ensinaram o que é lágrimas, aquelas que eu te disse que ardiam tanto. O nome do enjôo que você vai sentir é arrependimento, e a falta de fome que virá se chama tristeza. Então, quando os dias passarem e eu não te ligar, quando nada de bom te acontecer, e ninguém te olhar com meus olhos encantados, você encontrará a famosa solidão. A partir daí, o que acontecerá, chama-se surpresa. E provavelmente o remédio pra todas essas sensações acima... É o tal do tempo em que você tanto falava!

Tati Bernardi
 "É loucura odiar todas as rosas porque uma te espetou. Entregar todos os teus sonhos porque um deles não se realizou, perder a fé em todas as orações porque em uma não foi atendido, desistir de todos os esforços porque um deles fracassou. É loucura condenar todas as amizades porque uma te traiu, descrer de todo amor porque um deles te foi infiel. É loucura jogar fora todas as chances de ser feliz porque uma tentativa não deu certo. Espero que na tua caminhada não cometas estas loucuras. Lembrando que sempre há uma outra chance, uma outra amizade, um outro amor, uma nova força. Para todo fim um recomeço!"
O Pequeno Príncipe/Antoine Saint-Exupéry
“Meu olho intemporal me ensina que estou há muito fora do mundo (…) chega de viver ‘ad infinitum’ no espírito.”
Anjo Damiel, do filme Sob o Céu de Berlim

Devem estar estranhando essa reunião de pequenos trechos de autores diversos, que não eu (ainda por cima sobre temática tão “suspeita”). Poucas vezes fiz isso, mas gosto de reconhecer aquilo que me toca. E compartilhar com os que estão no meu caminho, sobretudo os que permanecem nele (nesse caso, foi o contrário – é um post muito mais escrito por outros do que por mim, e compartilhado pelos que estão no caminho comigo do que de mim para eles). Daí, resultou essa minha “colcha de retalhos” aí em cima. Mas o porquê… Já vão entender (ou não… afinal, que tipo de ser humano seria eu, se fosse compreensível?).

Engraçado como uns meses sem escrever podem representar uma vida inteira quando se pára pra pensar. Peço imensas desculpas, pois embora este aqui seja um grandessíssimo prazer, eram mais tempos de viver do que de escrever… Tempos de experiências únicas, intensas, mas também efêmeras (claro, elas tinham que ceder espaço a algumas outras, pelo menos até que assuma/m lugar aquela/s mais duradoura/s). A interrogação, que se transformou numa exclamação, depois numa interrogação novamente, numa exclamação interrogativa e, subitamente, num ponto final. No final de um ponto que dá início a outros. Outros que começarão a ser escritos. De novo. Tudo isso num estranho espaço surgido no tempo. Inesperado, confuso, estranho…


Apesar do tempo de viver ultrapassar o tempo de escrever, o tempo de ler e refletir se entrelaça a todos os demais. Por isso, acabei por me perceber, em semanas subseqüentes, reunindo pequenos trechos de escritos alheios (por mais batidos e repetidos que sejam), com elevado teor de auto-identificação e que, semanas após semanas, tomavam a forma que havia dentro de mim. Antes um rascunho bem rasurado (daqueles que se risca e amassa várias vezes, que acredita na vida mais do que na existência de uma dita felicidade – mas o que ela seria senão feita de momentos?), transformando-se numa versão mais definida (ora expressando um desejo de reciprocidade, ora um sentimento de esperança), e finalmente, chegando à possibilidade de ser publicado (re-afirmando uma decisão de viver e – por que não? – de ser feliz).


Impressionante o poder das palavras (ou da falta delas)… Podem iludir, entristecer, desnudar, confundir, afastar e fazer perder, mas também, como mágica, fazem acordar, pensar, acreditar, unir, sorrir e construir. Há quem diga que é preciso ter dom para lidar com elas, mas na minha sincera opinião, acho que o mais importante é respeito, prudência. E o meu respeito por elas só faz crescer. Talvez por tê-las usado em demasiado de uma única vez (só não posso dizer que foi em vão, porque se a gente acredita no que fala, lê, escreve, ouve ou canta, sempre vale à pena), precisei de um tempo maior para o “restabelecimento do estoque” (daí a demora em escrever novamente). Palavras faladas, escritas e musicadas, que certamente sempre têm o seu efeito, mas que devem ser religiosamente respeitadas. Em alguns momentos, somente um afastamento verdadeiro permite essa reconciliação. E aqui estou, depois de algum tempo, misturando-me a elas novamente, mas sabendo exatamente que o mundo a que pertencem não é apenas um, mas vários... Tantos quantos aqueles que as escrevem, ou lêem, ou expressam, ou sentem, e precisamos escolher dos quais fazer parte. Lição aprendida (será?).


Dos meus “retalhos”, observei: fases, momentos, sensações, pensamentos, resoluções, esclarecimentos… Surgiram-me nessas últimas semanas quatro. Podiam ser muitos mais. Coincidentemente, foram os tais. E a cada dia que um me aparecia, sem que eu mesma fosse buscar, mas trazido por alguém (cada um num canto do mundo), com um intervalo de tempo suficiente pra me fazer sentir o que lia, conseguia perceber que já não era ilusão o que partilhava, mas sim uma verdade aquilo que dentro de mim se escrevia.


Faltam-me ainda algumas palavras, algumas outras se re-definem, mas a certeza é de que, semana após semana, muitos outros “retalhos” serão “costurados” e alguns outros voltarão a ser de próprio punho escritos. Se já não estão sendo.

P.S.: Dessa vez não houve Clarice entre os “retalhos”, mas de tudo o que ficou desde o último post, agora está “A descoberta do mundo” na minha humilde biblioteca.

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