sábado, 27 de setembro de 2008

Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação, Universidade de Coimbra!

Atendendo a pedidos, vamos à primeira semana de aulas na Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade de Coimbra! Logo no primeiro dia, o que mais sentíamos era mesmo ansiedade por conhecer tudo o que nos esperava (colegas, professores, disciplinas, etc). Encontramo-nos no almoço (os brasileiros) e finalmente conhecemos a Sabrina, de Fortaleza(CE). A apresentação do pessoal vai ter que ficar para um próximo post, ok? De qualquer modo, completava-se o grupo dos brasileiros Erasmus Mundus em Coimbra: eu, Ju, Sá, Léo e Francisco.
Ao chegar à faculdade, descobrimos que todos os nossos seis colegas (somos 11 ao todo) são portugueses. E conhecemos alguns dos professores com quem vamos conviver ao longo do semestre. Era o Acolhimento, a Recepção dos alunos, portanto, foi feita a apresentação do Programa de Mestrado, dos professores e de cada um dos alunos, tiraram-nos algumas dúvidas e registramos o momento em fotos (esperamos ver o antes e o depois!). E de dez frases que ouvíamos, onze eram para nos alertar da quantidade de trabalho que teríamos nesse primeiro semestre. Afinal, são oito disciplinas, um número elevado para a graduação, ainda mais para o mestrado. Mas não tínhamos escolha, é determinação do programa o número de disciplinas que temos que pegar. Tudo bem, não tenho medo de trabalho e tenho certeza de que já passei por coisas piores na Ufba! Era o que eu me repetia a todo momento tentando me convencer. E até agora tem dado certo!
Bom, para ser sincera, fiquei ainda mais feliz quando as aulas efetivamente começaram. Os professores são muito bons e os nossos colegas são maravilhosos! Digo isso pela grata surpresa que tive ao descobrir o quão receptivos e atenciosos eles têm sido conosco. Apresentam-nos às pessoas, à faculdade, aos trâmites da biblioteca e setor de informática, aos lugares, costumes, gírias, tradições, músicas e festas locais… Desde o primeiro momento, sentimos que será um grupo muito bom de se conviver, com quem iremos construir um relacionamento muito importante ao longo desses dois anos e, quem sabe, para a vida inteira… Não percebemos barreiras, apesar das diferenças de idade, de culturas, de pensamentos.
Quanto à idade, deixem-me explicar: após o Tratado de Bolonha, os países da União Européia tiveram seus cursos de nível superior também unificados. Dessa forma, os cursos agora têm duração de três anos, que seriam equivalentes à licenciatura, e por mais dois anos eles continuam diretamente no mestrado. Segundo os nossos colegas, eles não têm muita opção, pois, pelo menos enquanto psicólogos, não podem fazer muita coisa só com a licenciatura. Pelo menos foi o que eu entendi. Algumas consequências disso é que eles têm o diploma reconhecido em qualquer país membro da União Européia e também entram mais jovens no mestrado (os mais novos têm 21 anos, o mais velho deles tem 24). Dentre os brasileiros, que estudaram cinco anos de graduação antes de chegar aqui, porém, temos pessoas com alguma experiência no mercado de trabalho, especialização na área e um pouco mais de idade também (28, 30, 33 anos) – eu a Ju somos as brasileiras mais novas…
Mas foi realmente incrível a dedicação de alguns colegas em nos fazer sentir à vontade. A empatia e a identificação ao saberem que estávamos tão longe de casa e que iríamos ficar por mais um ano inteiro: “Vocês não vão para casa no Natal?” “Não, não vamos poder ir… Só no meio do próximo ano”. Foi algo que me marcou, justamente pela importância que dou a esses momentos, de reuniões familiares e, por já ter pensado nisso, me pegar chorando. Mas sabemos todos que estamos aqui por um objetivo e que, no fim das contas, tudo valerá à pena. Aliás, já está valendo! Vamos viver um dia de cada vez… Mas aproveito, desde já, para agradecer aos nossos novos amigos Erasmus Mundus (Filipa, Pedro, Tânia, Teresa, Catarina, Eduardo)!
Ah, não pensem que somos só onze na sala. Na verdade, temos algumas aulas, a maioria delas, juntamente com as pessoas do mestrado português, que não é Erasmus Mundus como o nosso, mas que pegam as mesmas matérias em Coimbra. Dessa forma, geralmente, somos uns 30 ou mais na sala…
Foi ainda no início da semana que fomos “intimados” a comparecer ao “jantar dos caloiros”, que seria na quinta à noite. Como ainda estamos sem aula na sexta, topamos imediatamente. Afinal, trata-se de um fenômeno cultural, antes de mais nada! Vocês verão nas fotos que os estudantes veteranos aqui utilizam uma veste específica (eles compram, bordam os símbolos e não é nada barato, em torno dos 200 euros). Cada caloiro (ou calouro, como nós chamamos) tem um padrinho ou madrinha veterano e passam por alguns mal bocados, como vocês devem imaginar. Já vi gente subindo e descendo as monumentais (uma escadaria maravilhosa, vocês vão ver nas fotos), correndo na praça, cantando e gritando pela rua, de mãos dadas, em fileira indiana, imitando animais. O jantar a que comparecemos foi uma experiência muito interessante. Além do jantar propriamente dito (carne de porco, só pra variar um pouquinho do que é servido todos os dias nas cantinas: porco ou peixe ;-) , vinhos, cervejas e refrigerantes, a Tuna da faculdade de apresentou (é uma banda formada por alunos da faculdade, que se apresenta com os trajes tradicionais, músicas e danças típicas). Foi muito legal mesmo!
Ontem, sexta-feira, recebi um telefonema muito bom de uma amiga de Salvador(BA)... Só que era pra marcarmos um encontro! Saímos, então, para jantar e depois tomar um café, com seu noivo e alguns amigos. é incrível como ver rostos conhecidos se torna tão importante! Amei te ver, Isa! Logo mais sou eu quem te visito em Setúbal!
Excepcionalmente, estou colocando dois posts num só dia, mas só porque eu já vinha escrevendo ao longo da semana. Eu pude perceber que não conseguirei manter a mesma frequência, simplesmente porque o tempo é curto para a quantidade de coisas que temos para fazer. Os professores realmente não estavam mentindo, mas tenho certeza de que, com a devida organização e obstinação, tudo vai sair às mil maravilhas.
Todos vocês, ou pelo menos os que têm paciência para ler meus posts até o final, já devem ter percebido que gosto de escrever, que chego a ser prolixa, detalhista e tudo o mais, mas esse é um espaço que considero o meu diário de viagem. Quero poder acessá-lo daqui a alguns anos e relembrar desses momentos que estou vivendo e dos que ainda estão por vir. E quero poder compartilhar com vocês todas essas descobertas e sensações, mesmo que à distância… Passaremos a tarde de domingo com o Pedro e a Filipa, que gentilmente se ofereceram para nos mostrar alguns lugares da cidade que ainda não conhecemos. Relaxar e recuperar o fôlego para começar mais uma semana! Para aqueles que ainda mantém o velho estereótipo do português mal-humorado e carrancudo, podem ter certeza: salvo algumas exceções (daquelas pessoas que podemos ver em qualquer lugar), encontramos exemplares bem diferentes deste! E é a eles que dedico o post de hoje.

Maratona turística antes das aulas!


Bom, vou tentar fazer um resumo básico da segunda semana em Coimbra, antes que as coisas resolvam me atropelar por si mesmas! Após o passeio à Quinta das Lágrimas, voltamos a fazer turismo, a fim de mostrarmos à cidade a um amigo da Ju em uma tarde!!! Corremos feito loucos… Embora às segundas-feiras muitos lugares legais estejam fechados, conseguimos aproveitar para conhecer alguns que ainda não tínhamos tido a oportunidade. Um deles foi a Biblioteca Joanina, da qual eu não tenho fotos ainda, porque não é permitido (mas como todo brasileiro dá um jeitinho, o amigo da Ju ficou de nos enviar). Sua construção data do início do século XVIII e seu interior, assim pudemos ver, conta com muitos recursos brasileiros: nossa madeira, nosso ouro, nossa história contada nos livros… Passamos um bom tempo conversando com o senhor que nos abriu a porta e fez questão de salientar que não era recepcionista, mas que era um adorador da História. Segundo ele, ao saber que somos brasileiras, podíamos nos sentir em casa, apesar da distância, pois estávamos conhecendo parte da vida dos nossos antepassados. E era assim mesmo que nos sentíamos e que nos reconhecíamos. Ele nos contou que a Biblioteca Joanina conta com 200 mil publicações, armazenadas cuidadosamente pois alguns datam do século XVI, sendo que somente 40 mil páginas de todas essas publicações estão digitalizadas… Imaginem o tanto de trabalho que falta ainda! Perguntamos imediatamente se esses livros estão disponíveis para consulta e ele nos disse que, mediante autorização adquirida na Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, para pesquisadores e estudiosos de algum tema específico que possa ser encontrado dentre as obras da Biblioteca Joanina, há sim a possibilidade de consulta. É claro, há todo um processo para a retirada desses livros. É preciso solicitar com três dias de antecedência, para que eles possam ser transportados em veículos especiais, livres da luminosidade e umidade do ar, visando mesmo a sua preservação, até a biblioteca geral. Após o uso, o livro volta ao seu lugar de origem. É uma biblioteca cheia de pompas e que, apesar de ter sido construída como um projeto do rei D. João V de reforma dos estudos universitários, a Biblioteca Joanina é reconhecida como uma das mais originais e espetaculares bibliotecas barrocas da Europa. E tem um quadro enorme do rei ao fundo, é claro. No caminho da Biblioteca, passamos pela faculdade de Direito que, junto com a de Medicina, é uma das mais antigas da Universidade. Já falei o quanto eu fico fascinada ao pensar na quantidade de estudiosos e mentes brilhantes (outras nem tão brilhantes assim, provavelmente) passaram por esses lugares desde que a Universidade foi criada, não é? Acho que posso me tornar repetitiva sobre esse assunto!
Continuamos a semana intensamente, resolvendo as questões pendentes, procurando uma atividade física qualquer que encaixasse nos nossos horários (e eu encontrei dois lugares para fazer dança do ventre, só os horários que não ajudam, porque às 21h os autocarros, ou ônibus, aqui ficam raríssimos)… Na terça, encontramos o Francisco, o Léo e a Taís (os dois primeiros, colegas do mestrado - colombiano e brasileiro, respectivamente -, e a Taís, amiga do Léo) e finalmente pudemos comer um Bacalhau à Gomes de Sá! Muito giro, pá! Durante a sobremesa resolvemos que íamos viajar no dia seguinte a duas cidadezinhas próximas: Conímbriga, pela manhã, e Buçaco pela tarde.
A atração de Conímbriga, consiste basicamente no sitio arqueológico e o Museu de Conímbriga. Mais uma atracão turística para apaixonados por Historia como eu. Simplesmente foram encontradas evidências arqueológicas nas ruínas de Conímbriga que datam do século II a.C!!! O mais incrível foi poder fechar os olhos e imaginar como era aquele povoado, as pessoas que vivam ali… As cores dos mosaicos ainda se mantém depois de mais de 2000 anos!!! São ruínas romanas, por isso pudemos ver bem o estilo de arquitetura e vida deles naquela época: termas, aquedutos, pilares, jardins… Em alguns pontos, tentou-se reconstituir mais ou menos como seriam na realidade aquelas construções originalmente. O museu revela objetos dos mais variados, referindo-se à vida cotidiana, agriculura, armas, higiene, pesca, carpintaria, etc, encontrados durante as escavações, iniciadas desde 1899.
Almoçamos em Coimbra e partimos para a segunda aventura do dia. Tudo isso de autocarro intermunicipal mesmo, superbarato (coisa de 2 ou 3 euros cada passagem)… Próxima parada era Buçaco ou Bussaco ou Bussacos, como a Ju apelidou… Na verdade, encontramos escrito com SS e com Ç, mas é no singular mesmo. Em Buçaco, está localizada a Floresta Nacional de Buçaco, que dissimula um antigo palácio real construído no século XIX. O percurso era grande e não teríamos tempo de fazê-lo completamente antes do horário do ultimo autocarro que retornava à Coimbra. Então, escolhemos alguns pontos e corremos para conhecê-los (considerando que passamos a maior parte do tempo “babando” em volta do palácio real que hoje foi transformado no Buçaco Palace Hotel e não permite visitas para não incomodar os hospedes). Assim, conhecemos algumas fontes e a Porta da Rainha. Mas o ponto alto mesmo foi o hotel-palácio e seus jardins floridos, lindos… Sentimos muito não podermos entrar para conhecer por dentro, mas até tentamos dar uma espiada. Não faço ideia de quanto custa uma diária naquele lugar, mas não deve ser nada barato, pois é um dos mais luxuosos e tradicionais de Portugal. Mas, sem dúvida, é um conjunto arquitetônico único no mundo! Exuberante e cheio de detalhes!
Na sexta à noite, resolvemos ir ao teatro assistir aos Encontros Mágicos! Na verdade foi a gala do Festival Internacional de Magia que aconteceu aqui em Coimbra entre 16 e 21 de Setembro. Durante a semana, houve mágicos de rua , provenientes de todas as partes do mundo, em vários pontos da cidade. No fim de semana, um momento especial, com alguns artistas no palco do teatro académico Gil Vicente. E lá fomos eu e a Ju! Passamos o espetáculo inteiro impressionadas, querendo a todo custo descobrir o que havia por trás dos truques, pois mesmo tão de perto (estávamos na terceira fileira) não conseguíamos perceber a sutileza e rapidez dos seus atos! Mas é aí que está a magia, em estimular a imaginação das pessoas!!! Até tentei tirar fotos, filmar, etc, mas não consegui. Se eu não prestasse atenção, perderia tudo! Os detalhes são importantes nessas horas! Valia a pena mesmo para quem não gosta de circo. Aliás, havia gente de todas as idades, ainda bem! Isso mostra que a capacidade e o desejo de imaginar permanecem vivos mesmo com o passar do tempo… Basta estarmos atentos!
Para fechar a semana e comemorar o fim do verão resolvemos que íamos passar o sábado em Figueira da Foz, aqui pertinho também, a cidade com praia mais próxima de Coimbra. Ótima ideia, se não tivesse amanhecido um dia nublado, ameaçando chover. Insistimos assim mesmo. Resultado: vamos ter que voltar lá, porque o verão foi embora um dia antes por aqui. Nem Fomos à praia, tomamos chuva e todos os pontos turísticos que fomos visitar estavam fechados e só abririam à tarde. Almoçamos e voltamos para casa em Coimbra… Quando chegamos, encontramos ele: o Sol! E mais tarde soubemos que o fim da tarde em Figueira da Foz foi também ensolarado! Tudo bem , não vamos desistir, na próxima vez conseguiremos ir á praia, ou melhor, à areia da praia, porque na água tenho certeza de que não consigo mais entrar, agora que é Outono!
Resumo grande esse, pra variar, não é? Bom, a partir de agora, tende a se tornar mais difícil que eu escreva tanto, pois vou ter que me dedicar a escrever outras coisas: o meu projeto de mestrado, por exemplo! Na próxima, conto a vocês um pouco sobre a faculdade, as aulas e os meus novos colegas… E, é claro, sobre toda e qualquer viagem que surgir no meio do caminho!

sábado, 20 de setembro de 2008

Quinta das Lágrimas, Santa Clara, Coimbra, Portugal!


Finalmente estou com internet instalada! Agora vou poder atualizá-los com mais frequência dos acontecimentos por aqui. Bom, a última semana até que foi bastante movimentada, mas resolvemos começar conhecendo o nosso bairro: Santa Clara. Sim, o mesmo onde surgiram os famosos Pastéis de Santa Clara! Esses eu ainda não experimentei, mas não faltará oportunidade. Começamos, então, eu e a Ju, pela Quinta das Lágrimas. Ouvíamos diversas histórias sobre o local antes mesmo de vir morar aqui, mas poder respirar a História viva desses lugares é indescritível, principalmente para uma amante confessa do assunto como eu. De qualquer modo, resolvemos pesquisar. Conversar com as pessoas, ler os guias, procurar na internet… Atualmente, o jardim da Quinta das Lágrimas está localizado dentro do Hotel Quinta das Lágrimas, mas é aberto à visitação pública mediante o pagamento de 2,50 euros. É um lugar lindo, verde, florido, onde é possível passear através dos séculos, seja pela arquitetura da época, seja pelas lendas populares e relatos históricos. Logo de início nos deparamos com o banco do poema, escrito por Manuel Alegre, sobre o romance de D. Pedro e Inês de Castro (os protagonistas da postagem de hoje e a quem volto a me referir logo mais):

“Meu nome é Pedro. E fui teu rei.
Teu nome Inês. E foste minha.
Como Inês sobre a pedra estavas nua.
E o meu punhal eu o enterrei
No coração da lua.
Como Inês só depois foste rainha.”

A história da Quinta das Lágrimas está documentada desde 1326, ano em que a Rainha Santa Isabel (personagem de outra postagem, depois que eu conhecer o convento de Santa Clara-a-Nova, em que está enterrado o corpo da Rainha Santa e a cada quatro anos é exposta a sua mão que teria concedido milagres e se conservado até os dias de hoje), mandou fazer um canal para levar a água das suas nascentes para o Convento de Santa Clara. Ao lugar de onde saía essa água chamou-se Fonte dos Amores, por ter presenciado a paixão do neto da Rainha Santa, D. Pedro, por Inês de Castro. Diz-se que teria sido esse o mais proibido dos amores vividos em Portugal. Segundo as minhas “pesquisas”, conta-se que o príncipe Pedro, herdeiro do trono de Portugal, em 1339, teria se casado com Constança Manuel, da corte de Castela. Porém, teria sido por uma das criadas de sua esposa que Pedro teria se apaixonado: D. Inês de Castro. Este romance passou a ser comentado e mal aceito tanto pela corte quanto pelo próprio povo.
Dessa forma, o rei de Portugal, pai de Pedro, mandou exilar Inês no castelo de Albuquerque, na fronteira castelhana, em 1344, embora, segundo a lenda, os dois tenham continuado a se corresponder com frequência. No ano seguinte, a esposa de Pedro teria falecido ao dar à luz e este mandou, então, Inês regressar do exílio, passando os dois a viverem juntos (óbvio que esse fato provocou grande escândalo na corte portuguesa e desgosto para o rei de Portugal). O rei tentou novamente casar o filho com uma dama de sangue real, mas Pedro teria rejeitado essa proposta alegando sentir muito ainda a perda da sua esposa Constança… Ao mesmo tempo, ele vivia o seu amor com Inês, com quem teve quatro filhos.
Havia boatos de que o príncipe tinha se casado secretamente com Inês, algo que, para a família real traria implicações políticas graves. O rei decidiu, então, que a melhor solução era matá-la e, na tentativa de saber a verdade, ordenou a dois conselheiros que dissessem a Pedro que havia permitido o seu casamento com Inês, se assim o desejasse. D. Pedro percebeu que se tratava de uma armadilha e respondeu que não pensava em casar-se com ela. Cedendo às pressões gerais, o rei ordenou, em 1355, aproveitando a ausência de Pedro, que matassem Inês de Castro em Santa Clara. Ao saber da notícia, Pedro teria tentado impedir o assassinato, mas não teria chegado a tempo (daí teria surgido o ditado popular “É tarde, Inês é morta”, frase que teria sido dita a Pedro quando este chegara à sua procura).
Ao tornar-se rei, D. Pedro assumiu ter-se casado com Inês secretamente, tornando-a rainha postumamente e legitimando seus filhos. Em seguida perseguiu os assassinos de Inês, que tinham fugido para o reino de Castela (segundo a lenda, o rei mandou arrancar o coração de um pelo peito e o do outro pelas costas, assistindo à execução enquanto se banqueteava). O terceiro conseguiu escapar para a França e posteriormente seria perdoado pelo rei no seu leito de morte. D. Pedro mandou construir dois túmulos no mosteiro de Alcobaça, para onde transladou o corpo da sua amada Inês. Juntar-se-ia a ela em 1367 e os restos de ambos jazem juntos até hoje, frente a frente, para que, segundo a lenda “possam olhar-se nos olhos quando despertarem no dia do juízo final”. O lugar em que Inês teria chorado pela última vez, enquanto era trespassada pelos punhais dos fidalgos do rei, foi batizado por Luís de Camões de Fonte das Lágrimas. Lá teria ficado o sangue de Inês preso às rochas, ainda vermelhas depois de mais de 650 anos (devido, na verdade, a uma espécie de algas de cor avermelhada que nascem nesse local)…
Como eu disse, é uma história bonita, apesar de triste. Visitar esse lugar é mágico. Imaginar-se naqueles jardins, frequentados secretamente, conservados após tantos séculos… É claro que ao longo dos anos, foram sendo feitas algumas modificações, construídas outras partes que compõem a Quinta das Lágrimas, mas o essencial foi preservado. O palácio ali existente foi construído no século XVIII mas, devido a um incêndio, a casa apresenta arquitetura do século XIX, assim como o jardim romântico. Além disso, podem ser observadas diversas espécies vegetais de todo o mundo, que se constituem num tipo de Museu Vegetal, incluindo duas sequóias gigantes com quase 200 anos.
Ainda faltam alguns pontos importantes do nosso bairro para conhecermos (Convento de Santa Clara-a-Nova, Igreja de Santa Clara, Portugal dos Pequenitos), mas acho que começamos muito bem! E estamos realmente felizes de morarmos num lugar tão bonito, ao mesmo novo tempo novo e tão cheio de memórias… Nosso apartamento é lindo, espaçoso, iluminado e tem vista para o Relógio de Sol! Ah, segundo os portugueses, moramos no rés-do-chão esquerdo (ou simplesmente, térreo esquerdo, como seria conhecido por nós). Todos os dias (e à noite também), para irmos à grande maioria dos lugares, precisamos atravessar uma das três pontes que cruza o Rio Mondego, mais especificamente a de Santa Clara. E fazemos isso sempre à pé mesmo (ainda bem que o tempo está quentinho por enquanto, pra dar tempo nos acostumarmos e podermos aproveitar a vista)! O clima está ainda muito agradável. Tem feito sol na maior parte do tempo (pelo menos durante o verão, temos tido sol alto até as 19h, só começando a anoitecer mesmo às 20h). À noite, esfria um pouco, chegando aos 14ºC, mas nada que um casaquinho e um bom cobertor não resolvam. Já descobri que no inverno a temperatura chega a cair para 1ºC (seja o que Deus quiser!)… Vou adorar receber uma visita de vocês e mostrar tudo por aqui! Só não esqueçam os ténis e uns casaquinhos, ok?

domingo, 14 de setembro de 2008

A primeira semana do outro lado do Atlântico...


“Pois bem, cheguei. Quero ficar bem à vontade. Na verdade eu sou assim… Descobridor dos sete mares, navegar eu quero!”
Não vim exatamente “navegando”, mas voando eu cheguei!!! Faz pouco mais que uma semana a despedida… Os olhares, os abraços, as lágrimas, os sorrisos e os desejos de boas descobertas, mesmo antes de chegar ao aeroporto. Apesar dos bons e muitos momentos de reencontros e saudades durante o preparo para este embarque, acabou sendo tudo bastante corrido no último momento! No aeroporto, às 16h do dia 03/09, a sensação era de que ainda era cedo …
Viagem longa, mas tranquila. Dificuldade de dormir no avião? Pode-se tentar um comprimidinho básico, um livro ou alguns filmes. Pode ser que funcione. No meu caso, aproveitei meus companheiros: uma passageira (terapeuta holística), sentada ao meu lado, que se encaminhava rumo à Atenas, na Grécia; o livro A Cidade do Sol, de Khaled Husseini; e dois filmes que eram transmitidos (O homem de ferro e Kung fu Panda – ótimo, nenhum dos dois tinha dado pra eu ver no cinema). Ou seja, nada de sono durante as nove horas de vôo Salvador-Lisboa. Até tentei o remedinho, mas nada. Chegando lá, eu encontraria a Ju (com quem eu dividiria o apartamento em Coimbra) e ainda teríamos um outro vôo para a cidade do Porto (prefiro não comentar o trabalho desnecessário que tivemos, já que poderíamos ter pego um trem direto de Lisboa para Coimbra! Mas faz parte da experiência…). Após três horas de espera pelo próximo vôo e pelo avião da Ju que vinha de Brasília e se atrasara (o detalhe era que só nos conhecíamos pela internet e o meu medo era não nos reconhecermos), já estava na fila do embarque quando ela chegou com a Vanessa (uma amiga dela que vai passar os próximos seis meses estudando Psicologia na Universidade do Porto). No fim das contas, ainda pegamos o trem de Porto à Coimbra e só conseguimos chegar por vollta das 15h do dia 04/09. A essa altura, eu só enxergava o chuveiro e a cama. Mas foi uma noite tranquila, ainda tivemos disposição de sair pra jantar.
Período de adaptação e encantamento. Reconhecimento dos lugares, pesquisa no mapa. Apresentação ao pessoal da faculdade, informações sobre os documentos que precisávamos providenciar. Pesquisa de preços, notebooks (portáteis, em português de Portugal), celulares (ou melhor, telemóveis), internet. Dias intensos, enfim.
Dois dias depois da chegada, nos instalamos definitivamente na nossa morada em Portugal: Quinta das Lágrimas, bairro Santa Clara. Um lugar lindo e, apesar de novo, cheio de histórias, assim como toda a cidade… Fiquei fascinada! Vista para o “Rrrrellllógio de Sollll” (com direito a sotaque porrrtuguês, hein?) e o Parque dos Pequenitos (Portugal em miniatura, com vários castelinhos e símbolos das conquistas portuguesas reconstituidos em miniatura, inclusive do Brasil; ainda não fui lá, mas não vai faltar oportunidade)… Com tudo arrumadinho, passamos o primeiro domingo em Coimbra curtindo as merecidas “férias” pré-aulas. Dia de turista total! Parque Verde do Mondego, passeio na barca serrana, arco da Almedina… À noite, contato com os amigos da Ju na cidade do Porto. Resultado: corremos para a estação de trem (pessoas espertas não deixam a oportunidade passar, certo?).
No dia seguinte, fomos ao centro, conhecemos a Universidade do Porto, a Av. dos Aliados, a Torre dos Clérigos (linda, mas não estava aberta para visitação naquele momento… ainda volto lá, a vista é garantidamente maravilhosa), a Igreja do Carmo e várias outras praças e monumentos… Como diz mamy, em cada nova igreja que entramos, devemos fazer um pedido e podem ter certeza de que eu vou fazer em todas, porque aqui tem váárias! Na igreja do Carmo as velas são elétricas e você pode acender a quantidade equivalente ao valor das moedas que depositar (como sou estudante e ainda não recebi a bolsa, acendi uma só por 0,10 cêntimos). E os azulejos tipicamente portugueses pudemos ver em todo lugar! À noite, passeio na Vila Nova de Gaia (que é onde realmente é produzido o vinho do Porto; na verdade, a cidade do Porto somente exporta os vinhos…) e na Ribeira (pois é, no Porto também tem uma), com direito a vinho e cachorro-quente sem molho (só no Brasil usamos molho de tomate no cachorro-quente, eles fazem um sanduiche com queijo, presunto, o que quer que seja, mais a salsicha…).
Como aqui estamos no finalzinho do verão, não podíamos deixar de ir à praia!!! Fomos primeiro ao Palácio de Cristal (não deu pra entrar, mas é um ginásio de esportes, onde acontecem eventos; a sensação é o jardim do Palácio e a vista linda para a cidade) e depois à praia de Matosinhos. Apesar de já conhecer esse mar (só que do outro lado), pude sentir muitas diferenças do que vivia na minha cidade: muitas gaivotas, sol até às 20h, água congelante. Não me perguntem como, mas eu consegui entrar no mar, por muito custo (apesar do pessoal de Brasília, amigos da Ju, e esta principalmente, não ter demonstrado nenhuma dificuldade). Chegamos à praia às 15:30h, de biquini. E saímos ás 18:30h, de casaco. Outra diferença: vento muito frio!!! Com essas mudanças bruscas de temperatura, claro, eu peguei logo um resfriado (mas já estou bem, viu?).
E o dia não acabou por aí. As pessoas inventaram de ir ao “Piolho”, um barzinho próximo à Universidade do Porto bastante frequentado pelos estudantes. Até aí tudo bem. Só que saímos de casa mais de 02h da manhã!!! E eu que sempre fui mais diurna que noturna, hein? Bom, dizem que isso é comum por aqui. Na verdade, enquanto me sinto de férias até vá lá, principalmente porque nos primeiros dias a maior dificuldade era desacostumar o relógio biológico do horário brasileiro. Consequentemente, dormíamos muito tarde e acordávamos mais tarde ainda, considerando o fuso horário de quatro horas que temos no momento. Chegamos umas 05h em casa. E dormimos e domirmos e dormimos até as 14h! Era o dia em que decidimos retornar à Coimbra, afinal, havia uma série de documentações para providenciar ainda… Mas preferimos ir novamente à Vila Nova de Gaia, fazer degustação de vinhos nas famosas caves. Falando desse jeito, parece que nos embriagamos! Só que chegamos num horário em que só deu tempo visitar uma (a Croft). É bem verdade que muitas outras eram pagas, então, perderam a prioridade. Vinho tinto, de sobremesa, doce, mais forte, e uma delícia! E pra completar, após dias de tantas caminhadas, alongamento às margens do Rio Douro (isso foi coisa nossa mesmo, não tinha nenhuma aula pública não). Voltamos à Coimbra com um gostinho de quero mais…
Esses últimos dias têm sido bastante burocráticos, procurando resolver tudo para a minha matrícula na faculdade. Afinal, não posso esquecer o queme trouxe aqui, né? Renovação de visto, conta bancária, nº de contribuinte, inscrição no sistema de saúde, inscrição no departamento de relações internacionais da universidade, matrícula no curso de idiomas (o francês precisa melhorar), supermercado, pesquisa de preços de computadores, internet e celular… Ufa! Bastante coisa em pouco tempo. Acredito que daqui pra frente será sempre assim… A expectativa agora é saber como são nossos colegas do mestrado, nossos professores, nossas aulas, as próximas cidades que irei visitar e onde irei estudar.
A cidade é linda e tranquila. Pra variar, há brasileiros por toda parte (parece que estou escutando meus amigos dizendo pra me afastar de brasileiros e conhecer pessoas de outras culturas, mas definitivamente isso é impossível aqui em Portugal). Muita coisa me faz lembrar de Salvador: a arquitetura, principalmente. Muitas subidas, escadas e ladeiras (aliás, eu e a Ju já percebemos que nossa primeira aula é de ginástica localizada, porque pra chegar à faculdade, mesmo que peguemos algum ônibus até metade do caminho, precisamos sempre subir uma ladeirinha básica)… A comida não é tão ruim, o tempero é agradável, então estamos nos adaptando bem, procurando o que mais nos agrada (ao paladar e ao bolso, é claro). Mas nunca vi um lugar onde se come tanta carne de porco! Até strogonoff de porco eu já comi aqui! É claro que busquei uma feijoada num restaurante brasileiro também, que ninguém é de ferro! Massas, saladas, peixe, de tudo um pouco. Não é tão difícil controlar a alimentação. O Pastel de Belém não podia faltar, né? Agora falta experimentar o de Santa Clara!
Em outro momento apresento a Ju de maneira adequada a vocês, mas já posso dizer (e vocês vão perceber), que estamos nos dando muito bem! Aprendendo semelhanças e diferenças, sobretudo, nos respeitando e dividindo momentos e dificuldades. A saudade aperta bastante de vez em quando, principalmente nas horas de maior quietude e reflexão. Lágrimas afloram no silêncio, numa música, numa cena de filme… Como diz meu pai, sinto falta de um pedaço de mim. Por isso, a tática é me manter sempre elétrica, atarefada e com os pensamentos em movimento. Apesar da distância, como bem disse minha mãe, posso sentir cada um de vocês aqui perto. Como diz minha tia, a melhor parte é termos tanta facilidade de comunicação: a internet é rápida e eficiente, os telefonemas são ótimos, então, a distância caba sendo interrompida em alguns momentos. E são esses momentos que me fortalecem. Afinal, como disse meu irmão, haverá sempre alguém torcendo e esperando por mim. E, como diz minha dindinha, dois anos passam muito rápido, o melhor é aproveitar!

terça-feira, 2 de setembro de 2008

Aprender a voar...

Uma amiga hoje me sugeriu numa cartinha a trilha sonora desse momento, e me fez chorar (de novo!)... Mal sabia ela que essa música já estava nos meus pensamentos. Fofinha, bobinha, bonitinha, mas se me tocou é porque ela reflete mesmo o que sinto. E a verdade é que eu adoro essa música! Em dois dias, estarei escrevendo de um outro computador, uma outra cidade, uma outra terra. Aproxima-se, então, o meu embarque na rota do desconhecido (route de l'inconnu). Abrirei minhas asas, enfrentarei meus medos, aprenderei a arriscar e começarei a voar... Mas não esquecerei do lugar de onde eu venho, nem das pessoas que amo, nem por um segundo. Apenas um trechinho:

Breakaway
(Kelly Clarkson)

I'll spread my wings and I'll learn how to fly
Eu abrirei minhas asas e aprenderei a voar
I'll do what it takes till I touch the sky
Eu farei o que for necessário Até tocar o céu
And I'll make a wish, take a chance, make a change
E farei um pedido, arriscarei, mudarei
And break away
e escaparei
Out of the darkness and into the sun
Fora da escuridão E dentro do sol
But, I won't forget all the ones that I love
Mas eu não esquecerei as pessoas que amo
I'll take a risk, take a chance, make a change
Correrei o risco, arriscarei, mudarei
And break away
e escaparei
(Obrigada, Mi!)