Finalmente estou com internet instalada! Agora vou poder atualizá-los com mais frequência dos acontecimentos por aqui. Bom, a última semana até que foi bastante movimentada, mas resolvemos começar conhecendo o nosso bairro: Santa Clara. Sim, o mesmo onde surgiram os famosos Pastéis de Santa Clara! Esses eu ainda não experimentei, mas não faltará oportunidade. Começamos, então, eu e a Ju, pela Quinta das Lágrimas. Ouvíamos diversas histórias sobre o local antes mesmo de vir morar aqui, mas poder respirar a História viva desses lugares é indescritível, principalmente para uma amante confessa do assunto como eu. De qualquer modo, resolvemos pesquisar. Conversar com as pessoas, ler os guias, procurar na internet… Atualmente, o jardim da Quinta das Lágrimas está localizado dentro do Hotel Quinta das Lágrimas, mas é aberto à visitação pública mediante o pagamento de 2,50 euros. É um lugar lindo, verde, florido, onde é possível passear através dos séculos, seja pela arquitetura da época, seja pelas lendas populares e relatos históricos. Logo de início nos deparamos com o banco do poema, escrito por Manuel Alegre, sobre o romance de D. Pedro e Inês de Castro (os protagonistas da postagem de hoje e a quem volto a me referir logo mais):
“Meu nome é Pedro. E fui teu rei.
Teu nome Inês. E foste minha.
Como Inês sobre a pedra estavas nua.
E o meu punhal eu o enterrei
No coração da lua.
Como Inês só depois foste rainha.”
A história da Quinta das Lágrimas está documentada desde 1326, ano em que a Rainha Santa Isabel (personagem de outra postagem, depois que eu conhecer o convento de Santa Clara-a-Nova, em que está enterrado o corpo da Rainha Santa e a cada quatro anos é exposta a sua mão que teria concedido milagres e se conservado até os dias de hoje), mandou fazer um canal para levar a água das suas nascentes para o Convento de Santa Clara. Ao lugar de onde saía essa água chamou-se Fonte dos Amores, por ter presenciado a paixão do neto da Rainha Santa, D. Pedro, por Inês de Castro. Diz-se que teria sido esse o mais proibido dos amores vividos em Portugal. Segundo as minhas “pesquisas”, conta-se que o príncipe Pedro, herdeiro do trono de Portugal, em 1339, teria se casado com Constança Manuel, da corte de Castela. Porém, teria sido por uma das criadas de sua esposa que Pedro teria se apaixonado: D. Inês de Castro. Este romance passou a ser comentado e mal aceito tanto pela corte quanto pelo próprio povo.
Dessa forma, o rei de Portugal, pai de Pedro, mandou exilar Inês no castelo de Albuquerque, na fronteira castelhana, em 1344, embora, segundo a lenda, os dois tenham continuado a se corresponder com frequência. No ano seguinte, a esposa de Pedro teria falecido ao dar à luz e este mandou, então, Inês regressar do exílio, passando os dois a viverem juntos (óbvio que esse fato provocou grande escândalo na corte portuguesa e desgosto para o rei de Portugal). O rei tentou novamente casar o filho com uma dama de sangue real, mas Pedro teria rejeitado essa proposta alegando sentir muito ainda a perda da sua esposa Constança… Ao mesmo tempo, ele vivia o seu amor com Inês, com quem teve quatro filhos.
Havia boatos de que o príncipe tinha se casado secretamente com Inês, algo que, para a família real traria implicações políticas graves. O rei decidiu, então, que a melhor solução era matá-la e, na tentativa de saber a verdade, ordenou a dois conselheiros que dissessem a Pedro que havia permitido o seu casamento com Inês, se assim o desejasse. D. Pedro percebeu que se tratava de uma armadilha e respondeu que não pensava em casar-se com ela. Cedendo às pressões gerais, o rei ordenou, em 1355, aproveitando a ausência de Pedro, que matassem Inês de Castro em Santa Clara. Ao saber da notícia, Pedro teria tentado impedir o assassinato, mas não teria chegado a tempo (daí teria surgido o ditado popular “É tarde, Inês é morta”, frase que teria sido dita a Pedro quando este chegara à sua procura).
Ao tornar-se rei, D. Pedro assumiu ter-se casado com Inês secretamente, tornando-a rainha postumamente e legitimando seus filhos. Em seguida perseguiu os assassinos de Inês, que tinham fugido para o reino de Castela (segundo a lenda, o rei mandou arrancar o coração de um pelo peito e o do outro pelas costas, assistindo à execução enquanto se banqueteava). O terceiro conseguiu escapar para a França e posteriormente seria perdoado pelo rei no seu leito de morte. D. Pedro mandou construir dois túmulos no mosteiro de Alcobaça, para onde transladou o corpo da sua amada Inês. Juntar-se-ia a ela em 1367 e os restos de ambos jazem juntos até hoje, frente a frente, para que, segundo a lenda “possam olhar-se nos olhos quando despertarem no dia do juízo final”. O lugar em que Inês teria chorado pela última vez, enquanto era trespassada pelos punhais dos fidalgos do rei, foi batizado por Luís de Camões de Fonte das Lágrimas. Lá teria ficado o sangue de Inês preso às rochas, ainda vermelhas depois de mais de 650 anos (devido, na verdade, a uma espécie de algas de cor avermelhada que nascem nesse local)…
Como eu disse, é uma história bonita, apesar de triste. Visitar esse lugar é mágico. Imaginar-se naqueles jardins, frequentados secretamente, conservados após tantos séculos… É claro que ao longo dos anos, foram sendo feitas algumas modificações, construídas outras partes que compõem a Quinta das Lágrimas, mas o essencial foi preservado. O palácio ali existente foi construído no século XVIII mas, devido a um incêndio, a casa apresenta arquitetura do século XIX, assim como o jardim romântico. Além disso, podem ser observadas diversas espécies vegetais de todo o mundo, que se constituem num tipo de Museu Vegetal, incluindo duas sequóias gigantes com quase 200 anos.
Ainda faltam alguns pontos importantes do nosso bairro para conhecermos (Convento de Santa Clara-a-Nova, Igreja de Santa Clara, Portugal dos Pequenitos), mas acho que começamos muito bem! E estamos realmente felizes de morarmos num lugar tão bonito, ao mesmo novo tempo novo e tão cheio de memórias… Nosso apartamento é lindo, espaçoso, iluminado e tem vista para o Relógio de Sol! Ah, segundo os portugueses, moramos no rés-do-chão esquerdo (ou simplesmente, térreo esquerdo, como seria conhecido por nós). Todos os dias (e à noite também), para irmos à grande maioria dos lugares, precisamos atravessar uma das três pontes que cruza o Rio Mondego, mais especificamente a de Santa Clara. E fazemos isso sempre à pé mesmo (ainda bem que o tempo está quentinho por enquanto, pra dar tempo nos acostumarmos e podermos aproveitar a vista)! O clima está ainda muito agradável. Tem feito sol na maior parte do tempo (pelo menos durante o verão, temos tido sol alto até as 19h, só começando a anoitecer mesmo às 20h). À noite, esfria um pouco, chegando aos 14ºC, mas nada que um casaquinho e um bom cobertor não resolvam. Já descobri que no inverno a temperatura chega a cair para 1ºC (seja o que Deus quiser!)… Vou adorar receber uma visita de vocês e mostrar tudo por aqui! Só não esqueçam os ténis e uns casaquinhos, ok?
Um comentário:
E a primeira semana de aula, como foi? Esperamos notícias no blog, pelo menos!!
Postar um comentário