sábado, 2 de outubro de 2010

Metamorfose?

Há sempre um momento da vida em que acordamos nos sentindo como um ser estranho, esquisito, diferente, como se tivéssemos patas ao invés de braços e pernas, ou carapaça ao invés de um esqueleto, como se não pertencêssemos àquele ambiente, ou àquela parte da natureza. E é assim que Gregor acorda num certo dia. Sem conseguir sequer se mexer, sem encontrar os próprios braços e pernas, sem conseguir se enxergar ou ser visto pelos outros. Como um inseto, asqueroso e insignificante.

O personagem de Kafka pode ter sido criado há cerca de 100 anos, sem a mínima intenção de se tornar público, mas que continua atual, muitos de nós podem dizer. Numa época em que as exigências são cada vez maiores, sobretudo aquelas auto-direcionadas, e a importância das pessoas restringe-se ao que elas têm ou são capazes de realizar, sem dúvida de que Gregor poderia ser qualquer um de nós...
Ganhei um exemplar em francês de "A Metamorfose", de Franz Kafka, de uma grande amiga, na nossa primeira semana em Lisboa, como lembrança da sua visita à casa do autor em Praga, na República Tcheca. Confesso que a intenção de me fazer treinar o francês foi excelente, até porque o livro não é nada longo (e eu recomendo vivamente, seja lá em que idioma for), mas é claro que precisei intuir alguns trechos e pesquisar depois o seu significado. De todo modo, acredito que não haja quem não se transforme ou quem não se dê conta da sua metamorfose diária lendo um livro como esse.

Mas, provavelmente, esse não é o alvo preferido das pessoas, em tempos de "Comer, Rezar, Amar". Atenção: não pretendo aqui analisar ou criticar o livro, longe disso, até porque AINDA não o li (vi o filme e, mesmo concordando que se tratava de uma espécie de "comédia romântica auto-ajuda", que não necessariamente corresponde ao livro, eu não posso de nenhum modo dizer que não gostei). Por mais "nada a ver" que uma coisa pareça ter com a outra, o fato de eu ter assistido ao filme tendo acabado de ler "A Metamorfose", me fez pensar em por quê temáticas como essas atraem tanta gente. A constatação da metamorfose física e moral que sofremos dia após dia em nossa sociedadede, de que a vida que se tem não é exatamente aquilo de que se gostaria, ou que tudo o que se faz é apenas mais por acomodação à uma realidade confortável, ou para agradar ou corresponder às expectativas do outro, do que efetivamente por um desejo verdadeiro. Esse "apego" pode ser a qualquer coisa, a qualquer pessoa, a questão é que, de uma forma ou de outra, ele existe.

Muitas vezes, sentimo-nos incapazes de reverter a situação, é bem verdade. Mas, quando finalmente nos damos conta, ou nos tornamos coadjuvantes na nossa própria vida e mesmo na dos outros, deixamos de nos enxergar em nós mesmos, nos sentimos como insetos insignificantes, e vivemos um dia após o outro, à espera de que algo miraculoso aconteça; ou procuramos nos desfazer das nossas amarras, nos libertamos das nossas carapaças, enfrentamos os outros insetos, partimos em busca de nós mesmos e daquilo que acreditamos, pelo menos naquele momento, que nos trará a tão almejada felicidade.

Falar (ou, no caso, escrever) é mesmo muito mais fácil do que colocar em prática. Mas, não se trata de uma receita culinária ou uma bula de remédio, cada um encontra o seu próprio caminho. Gregor acabou "morrendo" na sua acomodação e pelo descaso dos outros diante da sua metamorfose "ao contrário", de ser humano a inseto. Liz Gilbert abandonou a vida estável e confortável para conhecer lugares que sempre sonhou. Outros começam uma terapia, um curso, engajam-se num trabalho voluntário, aproximam-se de uma religião, plantam uma árvore, encontram um amor, escrevem um livro...

As possibilidades são infinitas. O importante é, pelo menos, ter consciência de que elas existem, e que, mesmo envolvendo sempre um outro, no fim das contas, a escolha é nossa.

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