Claro que achei aquilo muito engraçado! E ainda hoje, depois de ter ido à Grécia e ao me ouvir contar alguns episódios, ele continua a afirmar “Ainda tenho as Pirâmides do Egito e a Carmem na Bahia!”
E então, eu me perguntei: será que eu falo tanto dela assim? Se calhar (como dizem os portugueses), falo sim… Mais do que me dou conta. E como podia ser diferente, se ela está nas minhas melhores lembranças?
Não só nas noites de febre alta, utilizando-se desesperadamente das técnicas para fazer baixar logo como num passe de mágica, mas também nas apresentações da escola, da dança, da vida… Era ela a maquiadora oficial da turma, pra quem todas as meninas corriam desde às 5 horas da manhã pra serem as primeiras a serem maquiadas em dias de apresentação, e ainda a que reproduzia com perfeição as maquiagens das fotos das Spice Girls que cada uma levava pra se sentir igualzinha. Era também a que preparava os lanches nas tardes de trabalho em grupo e ensaios das coreografias pro concurso de dança (e nos “obrigava” a interromper para comer alguma coisa).
Parece que foi ontem… Passávamos horas testando roupas, sapatos e bijuterias (quando não estávamos esparramadas na cama dela), até ela chegar de repente: “Meninas, o que vocês tanto fazem no meu quarto?” E sorria diante da cena, umas cinco meninas vestindo e tirando roupas que pudessem servir para nossas apresentações. Lembro também quando representamos a Índia na escola… E quase toda a mobília, almofadas e cortinas da minha casa foram transportados pro stand que nós montamos. E todos os lençóis brancos que tínhamos acabaram por servir de traje aos meninos… E ela estava lá, madrugada adentro, com a gente. Aliás, até mais do que a gente (acabamos indo pra casa mais cedo eu e Gisa, pra pintarmos unhas postiças pra usarmos na manhã seguinte)…
No ano seguinte, representamos o Canadá. E lá estava ela de novo. 30 meninas. Uma única fila na minha casa, às 05h da manhã. Todas competindo para serem as primeiras. Mas era só um sonho delas. A primeira era eu, claro!!! Nas apresentações de dança, lá estava ela de novo, no backstage do teatro, ajudando a gente a se vestir, maquiando, acalmando, aplaudindo…
Logo, ela foi promovida pelos próprios professores e também pelos meus colegas e amigos, a “assistente oficial para eventos”. E óbvio que ela fazia aquilo por puro e simples prazer…
Era ela também que fazia meus penteados, e levava horas, porque não era essa sua especialidade. E nos aborrecíamos porque aquilo era mesmo muito chato. Mas, no final, ela conseguia (ou não… então, eu saía fazendo birra).
Foi ela quem inventou “artes” no meu aniversário de 15 anos para não ficar somente nos bastidores (afinal, quem ia dançar a valsa comigo era meu pai! E como ela, que havia organizado toda a festa, não iria aparecer???). De um jeito ou de outro, lá estava ela, entrando radiante, com um enorme buquê de rosas no centro do salão para “finalizar” o momento da valsa. Carmem Lúcia não podia ficar nas sombras, de jeito nenhum!
E, mesmo nem sabendo dirigir, ela fez questão de me acompanhar com meu pai até o local em que eu faria o vestibular. Passou a manhã na igreja, enquanto eu fazia a prova. O mesmo aconteceu quando saiu o resultado. Foi com ela que me desloquei durante mais de uma hora, de ônibus, em um engarrafamento monstruoso, até a casa da minha tia, próxima à universidade. E foi com ela que eu comemorei a vitória. E quem esteve ao meu lado durante os momentos de fraqueza e durante a grande comemoração (o que seria de mim sem ela pra me ajudar a organizar a minha formatura?).
E mais: é ela quem enche o peito pra dizer a todos que queiram e não queiram ouvir, que a filha dela, psicóloga, ganhou uma bolsa de estudos concorrida e está na Europa fazendo o mestrado. Por mais que me mate de vergonha, essa informação ela passa cheia de orgulho desde o cabeleireiro até as vendedoras das lojas onde entra.
Foi quem me ensinou a amar, respeitar e preservar a nossa família e a reconhecer os verdadeiros amigos.
Mesmo sendo também aquela com quem tenho mais desentendimentos nessa vida, esses nunca são muito lembrados. Ainda mais agora… Eles se tornam mínimos diante da saudade, e da vontade de compartilhar mais momentos.
Voltando a pensar nas conversas aqui de Coimbra, de Paris e de qualquer lado onde eu ande, acho que tá explicado porque ela sempre aparece. E aparece “tão pouco” que ganhou status (pelo menos pro Francisco) de “uma das coisas que não posso deixar de ver antes de morrer”.
E é por isso também que, mesmo quando me sinto sozinha, percebo que nunca estou só. E percebo que somente um lugar me faz sentir vontade de chamar de “minha casa”. Não pelo espaço físico em si, mas pelas pessoas. Elas são o meu lar. E Ela foi quem me ajudou a construí-lo.
Mãe, você pode não ser tão diferente das outras mulheres extraordinárias que existem, mas pra mim vale muito mais do que as sete maravilhas do mundo! Obrigada por tudo! Por fazer parte dos mínimos detalhes da minha vida. Por me irritar e me divertir, por reclamar e ceder, por discutir e perdoar, por existir e me amar. Sei que esse aniversário está longe de ser muito feliz... mas que a felicidade te acompanhe em todos os seus dias.
Feliz aniversário, Te amo muito.
Um comentário:
Eu tô com Francisco e não abro!
Também quero conhecer a Grécia, as pirâmides do Egito e a famosa mãe da minha amiga em Salvador. Não necessariamente nesta ordem. =)
Muitas felicidades, saúde e amor sempre, sra. Carmen!
Um abraço de mais alguém que te admira mesmo sem ainda te conhecer pessoalmente. ;)
Juju.
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