sábado, 7 de novembro de 2009

Para a minha mãe...

Faz um tempinho estava eu aqui conversando com o Francisco e, entre risadas, ele de repente me diz: “Sabe de uma coisa? Existem três coisas que não posso morrer sem conhecer: o Parthenon na Grécia, as Pirâmides do Egito e a sra. Carmem na Bahia, não necessariamente nessa ordem!”
Claro que achei aquilo muito engraçado! E ainda hoje, depois de ter ido à Grécia e ao me ouvir contar alguns episódios, ele continua a afirmar “Ainda tenho as Pirâmides do Egito e a Carmem na Bahia!”
E então, eu me perguntei: será que eu falo tanto dela assim? Se calhar (como dizem os portugueses), falo sim… Mais do que me dou conta. E como podia ser diferente, se ela está nas minhas melhores lembranças?
Não só nas noites de febre alta, utilizando-se desesperadamente das técnicas para fazer baixar logo como num passe de mágica, mas também nas apresentações da escola, da dança, da vida… Era ela a maquiadora oficial da turma, pra quem todas as meninas corriam desde às 5 horas da manhã pra serem as primeiras a serem maquiadas em dias de apresentação, e ainda a que reproduzia com perfeição as maquiagens das fotos das Spice Girls que cada uma levava pra se sentir igualzinha. Era também a que preparava os lanches nas tardes de trabalho em grupo e ensaios das coreografias pro concurso de dança (e nos “obrigava” a interromper para comer alguma coisa).
Parece que foi ontem… Passávamos horas testando roupas, sapatos e bijuterias (quando não estávamos esparramadas na cama dela), até ela chegar de repente: “Meninas, o que vocês tanto fazem no meu quarto?” E sorria diante da cena, umas cinco meninas vestindo e tirando roupas que pudessem servir para nossas apresentações. Lembro também quando representamos a Índia na escola… E quase toda a mobília, almofadas e cortinas da minha casa foram transportados pro stand que nós montamos. E todos os lençóis brancos que tínhamos acabaram por servir de traje aos meninos… E ela estava lá, madrugada adentro, com a gente. Aliás, até mais do que a gente (acabamos indo pra casa mais cedo eu e Gisa, pra pintarmos unhas postiças pra usarmos na manhã seguinte)…
No ano seguinte, representamos o Canadá. E lá estava ela de novo. 30 meninas. Uma única fila na minha casa, às 05h da manhã. Todas competindo para serem as primeiras. Mas era só um sonho delas. A primeira era eu, claro!!! Nas apresentações de dança, lá estava ela de novo, no backstage do teatro, ajudando a gente a se vestir, maquiando, acalmando, aplaudindo…
Logo, ela foi promovida pelos próprios professores e também pelos meus colegas e amigos, a “assistente oficial para eventos”. E óbvio que ela fazia aquilo por puro e simples prazer…
Era ela também que fazia meus penteados, e levava horas, porque não era essa sua especialidade. E nos aborrecíamos porque aquilo era mesmo muito chato. Mas, no final, ela conseguia (ou não… então, eu saía fazendo birra).
Foi ela quem inventou “artes” no meu aniversário de 15 anos para não ficar somente nos bastidores (afinal, quem ia dançar a valsa comigo era meu pai! E como ela, que havia organizado toda a festa, não iria aparecer???). De um jeito ou de outro, lá estava ela, entrando radiante, com um enorme buquê de rosas no centro do salão para “finalizar” o momento da valsa. Carmem Lúcia não podia ficar nas sombras, de jeito nenhum!
E, mesmo nem sabendo dirigir, ela fez questão de me acompanhar com meu pai até o local em que eu faria o vestibular. Passou a manhã na igreja, enquanto eu fazia a prova. O mesmo aconteceu quando saiu o resultado. Foi com ela que me desloquei durante mais de uma hora, de ônibus, em um engarrafamento monstruoso, até a casa da minha tia, próxima à universidade. E foi com ela que eu comemorei a vitória. E quem esteve ao meu lado durante os momentos de fraqueza e durante a grande comemoração (o que seria de mim sem ela pra me ajudar a organizar a minha formatura?).
E mais: é ela quem enche o peito pra dizer a todos que queiram e não queiram ouvir, que a filha dela, psicóloga, ganhou uma bolsa de estudos concorrida e está na Europa fazendo o mestrado. Por mais que me mate de vergonha, essa informação ela passa cheia de orgulho desde o cabeleireiro até as vendedoras das lojas onde entra.
Foi quem me ensinou a amar, respeitar e preservar a nossa família e a reconhecer os verdadeiros amigos.
Mesmo sendo também aquela com quem tenho mais desentendimentos nessa vida, esses nunca são muito lembrados. Ainda mais agora… Eles se tornam mínimos diante da saudade, e da vontade de compartilhar mais momentos.
Voltando a pensar nas conversas aqui de Coimbra, de Paris e de qualquer lado onde eu ande, acho que tá explicado porque ela sempre aparece. E aparece “tão pouco” que ganhou status (pelo menos pro Francisco) de “uma das coisas que não posso deixar de ver antes de morrer”.
E é por isso também que, mesmo quando me sinto sozinha, percebo que nunca estou só. E percebo que somente um lugar me faz sentir vontade de chamar de “minha casa”. Não pelo espaço físico em si, mas pelas pessoas. Elas são o meu lar. E Ela foi quem me ajudou a construí-lo.
Mãe, você pode não ser tão diferente das outras mulheres extraordinárias que existem, mas pra mim vale muito mais do que as sete maravilhas do mundo! Obrigada por tudo! Por fazer parte dos mínimos detalhes da minha vida. Por me irritar e me divertir, por reclamar e ceder, por discutir e perdoar, por existir e me amar. Sei que esse aniversário está longe de ser muito feliz... mas que a felicidade te acompanhe em todos os seus dias.
Feliz aniversário, Te amo muito.

O casamento dos meus grandes e eternos amigos...

Um fim de semana com tanta mistura de emoções... Neste dia 07, dois amigos muito queridos (Giselle e Marcel), de tantos anos, concretizaram uma união linda e iniciam uma nova família. Foram 10 anos entre namoro e noivado. E agora eles concretizam seus planos e sonhos. Mais uma vez, era pra eu estar lá... A primeira das madrinhas, convidada antes mesmo de existir um casamento... Demos um jeito, claro, pra que eu pudesse participar de algum modo. E o que eles fizeram para conseguirem transmitir via internet esse momento pra mim, eu não vou esquecer nunca...

Bom, na verdade, a história que eu aqui vou contar não começou somente há 10 anos… Afinal, eu e Gisa fomos nomeadas madrinhas dos nossos respectivos casamentos ainda crianças. E foi em 1993 que nos encontramos pela primeira vez, eu e ela. Tornamo-nos dia após dia, amigas da escola, das brincadeiras, dos ensaios de dança nos quintais das nossas casas, dos quartos das nossas mães (experimentando roupas e bijuterias), das confusões, armações, decepções e vitórias. Mais do que amigas, entramos na família uma da outra, passamos a irmãs e cúmplices.

Quando queríamos, éramos a Vicky e a Mel B. das Spice Girls, a tímida e a extrovertida, a razão e a emoção, a organizadora e a relações públicas das festas, mas sempre e em qualquer lugar, o riso solto e as gargalhadas, o olhar cúmplice e confiante, as idéias mirabolantes, os sonhos possíveis e impossíveis.

Lembro quando dancei valsa nos seus 15 anos. Parece que foi ontem que estávamos dentro daquela van, as 15 meninas vestidas de princesas…

Mesmo com a vida nos levando por caminhos diferentes, ou melhor, a escolas diferentes, nossos corações nunca se separaram. Hoje, mais do que nunca, podemos sentir isso.

E foi nesse período que eles se conheceram. 1999. Lembro como se fosse hoje o fim-de-semana prolongado em que estávamos só as meninas na casa de praia de Tâmara, e aquele celular enorme e jurássico de Giselle não parava de tocar! Tínhamos, então, entre 15 e 16 anos. E não só o celular era insistente, como minha amiga ficava toda derretida ao atendê-lo (dengosa sempre foi, né? Ainda mais com o “love” do outro lado da linha!). Naquela época, ninguém, nenhuma de nós, acho que nem mesmo eles, podia imaginar ou prever exatamente onde essa história chegaria (ainda que no auge do romance todo casalzinho se encha de planos de casarem e terem filhos um dia, não é?). Havia apenas dois adolescentes se conhecendo, se apaixonando, se descobrindo...

Mas com eles foi diferente. Os sonhos e planos de “casalzinho adolescente” cresceram e amadureceram junto com eles. A verdade é que essa data (07 de Novembro de 2009) estava sonhada e planejada desde sempre... Poucas pessoas sabem ou se lembram, porém, de que as dificuldades também não foram poucas. Marcel e Gisa, por algum tempo, precisaram realmente lutar e enfrentar a resistência de quem mais amavam para ficarem juntos. E não foi à toa que ambos, não somente mudaram a opinião dos que não viam sua relação com os melhores olhos, como também construíram em volta deles uma rede de laços familiares e de amizade que os apoiavam e, sem dúvida, estão aqui presentes essa noite (pelo menos em sua maioria).

Faz tempo vejo cada um deles aceitos e reconhecidos como verdadeiros membros de cada uma das respectivas famílias, que se tornam agora uma só, unidas pela confiança e pelo amor que eles sempre expressaram um pelo outro.

Como amiga, vi idas e vindas, consolei, animei, aconselhei, mas vi acima de tudo que um amor adolescente pode crescer, amadurecer, mudar, aprender, defender-se, enfrentar os obstáculos da vida e tornar-se ainda mais forte.

Eles não podem imaginar a honra e o orgulho de ter sido, de certa forma, testemunha de tudo isso. Menos ainda podem imaginar o quanto me custa não conseguir estar ao seu lado para testemunhar a concretização daquilo que muitos acreditaram ser devaneio de criança, arrumar o véu antes da minha afilhada entrar na igreja, dar um abraço confiante no meu afilhado, como sempre fantasiamos e planejamos por tanto tempo… Não pensem que não passei todo o último ano pesquisando formas de fazê-lo, nem que fosse no último momento, de surpresa. Mas a vida prega algumas peças na gente... Muitas vezes, precisamos abrir mão de coisas realmente importantes, pra realizar um sonho... Ossos do ofício, como costumam dizer por aí.

Se existe uma coisa que eu não gostaria de perder nessa vida, sem dúvida, é o olhar da minha grande e eterna amiga/irmã ao subir naquele altar. A imagem da menina falante de óculos coloridos cruzando o olhar da menina atrevida de cabelos bem presos, o olhar confiante e o sorriso encorajador, se misturando à imagem das duas belas e fortes mulheres que nos tornamos. O olhar da mulher linda e vestida de branco atravessando o corredor florido cruzando com o olhar do homem orgulhoso e radiante, que sempre esteve à sua espera.

Gisa e Cel, meus afilhados que eu tanto amo, o meu convite para sua madrinha foi-me designado desde sempre. E, mesmo deixando essas imagens na minha fantasia, assim eu sempre vou me considerar. Quero que saibam que, embora triste pela minha ausência, sinto-me radiante pela felicidade que sei que vocês estão vivendo. Desejo que ela se torne cada dia mais parte da sua vida e que, mesmo diante de quaisquer obstáculos e dificuldades, vocês tenham sempre, em primeiro lugar, amor e sabedoria para saberem lidar e aprender com eles. Que a nova família que vocês começam a construir a partir de hoje seja sempre abençoada por Deus e caminhe rumo à felicidade. Espero poder ser testemunha de mais, muitos e muitos anos dessa união!

Da sua madrinha.

Para sempre "minha dindinha"...

Hoje é sábado. Amanheceu um dia bonito e ensolarado. Foi assim que acordei, com a luz entrando no meu quarto, sem despertador, depois de uma semana cansativa... Liguei o computador, mas resolvi primeiro arrumar a bagunça que estava o meu quarto, lavar as roupas e limpar a casa. Duas horas depois, cá estava eu, pronta pra começar a trabalhar um pouquinho antes do almoço. O tempo já não estava tão ensolarado. é assim aqui em Coimbra, as nuvens surgem do nada e o tempo fecha sem que a gente se dê conta. Abri os dois artigos que precisava analisar e, simultaneamente, como de praxe, resolvi checar os meus emails. Vários novos na caixa de entrada. Um do meu irmão, mesmo sem ter aberto, chamou minha atenção logo pelo título: "Notícias". nem precisei abrir pra imaginar o que era. No mesmo segundo do click do mouse já derramava as primeiras lágrimas. "Cary, não sei dar essas noticias, mas não queríamos que você soubesse pelo orkut..." Minha madrinha havia falecido. Na tarde de ontem. No Brasil. E eu aqui.
Mesmo já sendo algo "mais ou menos" esperado, mesmo já tendo me "despedido" dela quando saí de lá, mesmo já sabendo que a notícia viria a qualquer momento e que, de qualquer maneira, eu estaria longe, a dor não foi menor... As lágrimas não foram poucas... E as lembranças muito menos.
Já não enxergava os artigos na tela do computador. Tentava ligar deseperadamente pro Brasil e ninguém me atendia. Enquanto isso, o Paco aparece no skype "Oi, já estou de novo em Coimbra! Sabe onde tem cantinas abertas pro almoço?" Não, não sabia, nem lembrava. Mas era um alívio pensar que não estava completamente sozinha... Até que cinco minutos depois finalmente consegui falar com meus pais. Choro coletivo pelo telefone. Preocupação do lado de lá, vontade de atravessar o oceano, do lado de cá. Mas, é impressionante como a Fé acalma nossos ânimos. Eu sei que agora ela está bem. A minha dindinha.
Ah, sim. Era a minha dindinha. Nunca soube chamá-la de outra coisa. Era a irmã mais velha da minha mãe, quase minha avó (embora fosse mesmo minha tia), mas desde que aprendi a falar, era a minha dindinha. O tempo passou, eu cresci, virei a "doutora psicóloga" dela, mas ela continuava a ser sempre a minha dindinha. Não madrinha, nem dinda, nem tia Avany, mas dindinha.
Lembro quando eu saía direto da escola e o transporte escolar me deixava na casa dela. Passava a tarde inteira lá, até meus pais saírem do trabalho e irem me buscar. Era com ela que eu fazia o dever de casa, mas era ela também que me mandava ir brincar com as outras crianças quando terminava, porque isso também era saudável. E distribuía doces e geladinhos na hora da merenda. O tempo passou e, como eu cresci, ela também envelheceu. E já não precisava cuidar de mim, era muito mais o contrário agora. Podia ser "malcriada", "reclamona", e "teimosa" com algumas pessoas. Mas nunca comigo. Nosso olhar era cúmplice. A mim ela escutava. Comigo não tinha problema, fazia tudo certinho. A gente se entendia.
Agora chove aqui em Coimbra. A neblina já não me deixa enxergar a paisagem da minha janela. Como eu disse, o tempo vira mesmo de uma hora pra outra...
Fico feliz por termos tido a oportunidade de termos a nossa última conversa, mesmo que tenha sido há quase dois meses. Mas nossos pensamentos estavam interligados. Enquanto possível, trocávamos recadinhos por minha mãe ("Mande um beijo e um abraço pra Carine"). Agora ela está em paz, é isso o que importa. Fico triste por não estar lá, com a minha família, nesse momento... Sei que precisamos sempre uns dos outros nessas horas. E triste mesmo pela idéia de que, quando voltar, já não vou encontrá-la. Mas a tristeza, eu sei que passa com o tempo, o que fica mesmo é a saudade. Aos poucos acho que vou conseguindo lidar com ela...
Em meio às lágrimas e ao entorpecimento, a minha estratégia foi escrever. Agora, já mais calma, vou ver o mundo, vou respirar um pouco, vou rezar por ela, aquela que será para sempre a minha dindinha...
Sei que a chuva logo passa, daqui a pouco o sol pode abrir novamente.