domingo, 1 de março de 2009

Cary Barcelona


Era uma vez... Uma "menina" de 24 anos (quase 25, hein?) que sonhava em conhecer o mundo (vou me permitir chamá-la de menina mesmo, porque é assim que muitas vezes ela ainda se sente). De repente, viu-se diante dele (do mundo). As pessoas costumam dizer que ela é corajosa e determinada, algumas vezes ela acredita, outras duvida veementemente ou ainda finge que concorda. Acontece é que ela se viu não só diante do mundo, mas também diante da necessidade de enfrentar muitos dos seus medos.
Um mês atrás sequer conseguia decidir por onde começar, até que Barcelona foi mesmo escolhida como o próximo lugar dessa jornada iniciada seis meses atrás. Afinal, como ela seria capaz de viajar sozinha, para um lugar estranho, sem falar o idioma nativo (diga-se de passagem, catalão não é espanhol!)? Mas lá ela reencontraria amigos (a Sá e o Paco, mais especificamente, que já lá estavam). E o que se faz nessa vida sem eles, não é verdade? Ela então, criou coragem (um bocadinho daquela que as pessoas diziam que ela possuía de sobra).
E, assim, a menina chegou à Barcelona, falando inglês e tentando "portunhol-catalão" de vez em raramente. Sentiu logo a vida e as luzes da cidade, e, mais ainda, sentiu-se feliz por estar ali. Ao longo de uma semana, viu bastante do que tinha para ser visto, apaixonou-se por Gaudí reconheceu Picasso, encantou-se com Miró, apresentou-se a Joaquim Mir.
Deu-se conta de que, sim, era capaz de andar sozinha por uma cidade em que não falava o idioma e assim o fez. Com a companhia do seu mapa e, é claro, da câmera fotográfica "ultra-compacta", que não sai da sua mochila, ela passeava pelas ruas da cidade... E passou pelas Ramblas, pela Laietana, pelos Parques (o dos Labirintos, o Güell - que é Gaudí, o da Ciutadella), Monumentos (Colombo, Arc de Triomph), Praças (da Catalunya, d'Espanya), Igrejas (Catedral, Sagrada Família, Santa Maria Del Mar) e Museus (Fundação Miró, Caixa Fórum, Picasso, Casa-Museu Gaudí, Casa Battló, La Pedrera), pelo Estádio Olímpico, pelo Castelo de Montjuic, pelo Palácio da Música Catalana, enfim, pelos lugares e pelas pessoas. Pessoas de todos os lugares, falando em todos os idiomas: portugueses, brasileiros, americanos, espanhóis, britânicos, alemães e, principalmente, franceses e japoneses.
Mas também estava entre amigos. E, cada um deles, apresentou à menina uma visão diferente da cidade. Com a Sabrina, a menina Cary conheceu o Mar Mediterrâneo pela primeira vez (embora o tempo não lhe permitisse entrar na água ainda), o Ovelha Negra (bar tradicional de Barcelona), o Bosque das Fadas (também é um bar muito característico, a menina teve vontade de vestir-se de fada quando entrou lá), o carnaval em Sitges (cidadezinha próxima, em que todos foram vestidos à fantasia; cada um tinha um palpite sobre a que a menina vestia - até hoje não sabem ao certo o que era), a Champanheria (nesse lugar, para beber "cava" - digamos que seja o "champagne"deles, você precisa comer qualquer coisa), representantes do Brasil, da França, da Espanha, da Colômbia e até da Índia, residentes, trabalhadores e estudantes em Barcelona. Para ela, toda aquela mistura era, ao mesmo tempo, fascinante e assustadora. Viu-se, de repente, alguns dias à frente, já na nova realidade que a aguarda, com pessoas de várias nacionalidades tentando se comunicar (e conseguindo). Continuou tentando lutar conta o medo e, por causa desse desgaste, "quedou-se" por alguns minutos muda, como se nem português soubesse falar (mas a Sá estava lá e resgatou-a desse "transe" repentino).
Com o Paco, a menina comeu paella pela primeira vez em Espanha (quer dizer, Catalunya), percorreu os Labirintos do Parque, deu-lhe um abraço de aniversário à meia-noite (não é qualquer um que completa 35 anos dentro de um trem a caminho para Sitges), foi à MontSerrat. Foi neste último lugar, entretanto, que a menina viu-se diante de um outro medo: altura. Sim, porque era preciso subir três funiculares para alcançar o ponto mais alto da montanha e, entre um e outro, eles faziam longas caminhadas, paravam pra respirar e admirar a beleza do que se erguia à sua volta. A menina seria um tanto leviana se dissesse que não sentiu nem um friozinho na barriga, ou melhor, que não sentiu medo mesmo. Mas, segundo confessou-me, depois de subir sozinha até o alto da Sagrada Família, posar pra foto na sacada e ainda descer tudo de escadas, começou a acreditar que tinha mesmo um bocadinho daquela coragem que as pessoas falavam. Então, com muita cautela e contando com o apoio psicológico (literalmente) do amigo Paco, a menina subiu e subiu e subiu... E sentiu-se, mais uma vez, muito feliz por estar lá. Passaram tanto tempo admirando tudo aquilo que quase perderam o último trem que ia direto pra Barcelona. Quer dizer, haviam informado que ele saía às 18h e, a essa altura, ainda estavam na fila para pegar o funicular pra estação. Mas, ainda bem, havia outros trens, que faziam algumas paradas ao longo do caminho e que eles conseguiram pegar por volta das 18:30h. Cansada, mas feliz, foi como a menina dormiu nesse dia.
O momento da volta era também um momento de despedidas. Barcelona agora já faz parte do coração dela, e será a casa de quatro dos seus colegas nos próximos meses (Sá, Ju, Edu e Ana). Mesmo tendo visto muito do que tinha para ser visto, acredita que cada dia nessa cidade deve proporcionar uma nova descoberta. A menina só desejava que todos sejam tão felizes quanto aquela cidade puder fazê-los e mais ainda do que eles possam imaginar. Com esse sentimento, embarcou de volta para a cidade que tão bem a acolhera seis meses atrás, para novamente preparar as malas, despedir-se de mais alguns amigos e partir rumo a mais um "pedacinho" do mundo.
Estranhamente, a menina acredita que tem conseguido enfrentar mais um de seus medos: a despedida. Daquela turma dos onze, somente o Paco a acompanha nos próximos meses. Mas, ela tem a certeza de que, seja no francês, nos estudos, conversas e passeios "terapêuticos", já tem um grande amigo ao seu lado. Separar-se de alguns, entretanto, é mais difícil. A menina ainda chegou a tempo de dizer "até mais ver" ao Léo, ao Pedro e à Tânia. Registra os lugares da cidade por onde passava todos os dias, os olhares e sorrisos das pessoas que quer levar consigo. Ela e a "irmã postiça" que lhe arranjaram são as últimas a se despedirem. Prometem-se o reencontro, em qualquer lugar do mundo, durante esses próximos meses, brindam à vida que tiveram até aqui e à que as aguarda lá "fora", choram lágrimas de saudades, riem dos momentos "sem graça", fotografam cada passo (não só nas câmeras, mas em suas memórias).
A partir de agora, a menina Cary promete a si mesma que não vai mais deixar seus medos tornarem-na muda, paralisarem suas pernas, impedirem-na de subir mais alto. Ela quer descobrir, viver, crescer, encontrar, reencontrar, aprender, desaprender, chegar e partir. Para isso, vai mesmo ter que acreditar no que as pessoas lhe dizem... Se ainda não tiveres, busca cada dia um pouquinho mais de coragem, Cary.

P.S.: Imagem 01 - Jovem em frente ao espelho (Picasso)
Imagem 02 - Detalhe do teto no Parc Güell (Gaudí)
Imagem 03 - Vista do alto em MontSerrat

5 comentários:

Leonardo Blanco dos Santos disse...

Oi, Cary!
E tenho a certeza de que ela ainda vai subir e subir e subir cada vez mais alto!
Foi muito bom mesmo termos nos encontrado todos antes de partirmos para essa nova fase, da qual vamos voltar todos mais seguros e corajosos! Obrigado por ter nos proporcionado isso, acho que foi você quem nos reuniu ali.
Beijos, Leo

Tarsila Leão disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Tarsila Leão disse...

Cary!
Você escreve de forma esplêndida, é como estar ao seu lado ou ouvir você falar!
Coragem? Certamente você já encontrou a dose certa para cada momento e Medo... às vezes ele nos faz bem e é até necessário, só precisamos aprender a lidar com ele!
“Gaudí construiu uma casa segundo as formas do mar...”, disse Dalí, fica no Paseo de Gracia, em Barcelona...vai lá por mim!
Bjss,
Tai.

Carine disse...

É claro que eu fui, Tai! Pode ver as fotos da Casa Battló no meu álbum! Léo, nao sei se fui eu quem nos reuniu, mas acredito que esses momentos nos tornam mais fortes para seguirmos em frente... Obrigada por serem meus amigos!

Anônimo disse...

Barcelona é tudo de bom, né? Viu as fotos no meu orkut? Fiquei encantada também, Cari!

Beijão procê!

Yasmine.